" Que os bares e restaurantes que estão morrendo de morte matada, e não de morte morrida, recebam do Governo recursos não reembolsáveis para que voltem à plena atividade”- Paulo haddad, Ex-ministro da fazenda e do planejamento

Por Valerio Fabris

Bares e Restaurantes precisam de ajuda para sair da crise que atinge o setor

É preciso impulsionar a economia, já, com grandes investimentos em habitação, infraestrutura e na transposição do São Francisco

Com estímulos financeiros para se restaurar o que foi e continua sendo destruído na pandemia, o setor da alimentação fora do lar responderá rapidamente. Isso porque dispõe de uma capacidade endógena muito forte. Os cafés, bares e restaurantes têm definido um claro horizonte de demanda. "Que os bares e restaurantes que estão morrendo de morte matada, e não de morte morrida, recebam do governo recursos não reembolsáveis para que voltem à plena atividade".

Estas afirmações foram feitas por Paulo Haddad, em entrevista à B&R. Ele foi ministro da Fazenda e do Planejamento no governo do presidente Itamar Franco (1979/82). Exerceu, ainda, a função de consultor do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento. “Tem de ser tomada a seguinte decisão no governo: vamos aumentar a dívida pública para realizar, agora, os muitos investimentos que o país precisa”.

O economista considera que está se praticando no governo uma excessiva ortodoxia fiscal. “Temos hoje, já aprovados, mais de 130 projetos habitacionais, de infraestrutura e até mesmo o de transposição do Rio São Francisco. São projetos que se espalham por todo o país, todos já com licenças ambientais aprovadas, e que já receberam o sinal verde do Tribunal de Contas. O deslanche desse grande conjunto de obras dará novo ânimo ao país.

Pode-se combinar com as muitas empresas contratadas para que, em uma determinada data de março, abram as filas de admissão de empregados. Isso causará um grande impacto, criará um novo ânimo. É o que estão fazendo vários países; os Estados Unidos, a Alemanha, a França e outros”.

O economista e ex-ministro faz uma pergunta que ele mesmo responde: “Para quem o equilíbrio fiscal é importante”? Para os rentistas”. Sobretudo em um momento como este, acrescentou, “não se pode haver ortodoxo do governo”. A extremada contenção fiscal vem, a seu ver, impedindo os empresários de liberarem o seu “espírito animal”, isto é, a pulsão de arrojo e coragem no empreender.

O ex-ministro argumenta que o quadro atual, “de amplo conhecimento de todos”, é o de elevado desemprego, com capacidade ociosa de máquinas e equipamentos. “Precisamos gerar demanda agregada. Não existe limite para a dívida pública. É urgente que se desengavetem os projetos. Eles gerarão receitas para pagar a dívida.

Alguns dirão que estaremos onerando as futuras gerações. Mas a herança que deixaremos para todas as gerações as fontes de receita para se pagarem as dívidas, é a modernização da infraestrutura econômica e social, aí incluindo a rede hospitalar, os câmpus universitários, a urbanização das cidades e periferias urbanas”.

O economista e ex-ministro faz uma pergunta que ele mesmo responde: “Para quem o equilíbrio fiscal é importante”? Para os rentistas”. Sobretudo em um momento como este, acrescentou, “não se pode haver ortodoxo do governo”. A extremada contenção fiscal vem, a seu ver, impedindo os empresários de liberarem o seu “espírito animal”, isto é, a pulsão de arrojo e coragem no empreender.

Paulo Haddad especializou-se em Planejamento em Planejamento Econômico na Holanda (no Instituto de Estudos Sociais,em Haia), foi ministro de Planejamento e da Fazenda no governo do presidente Itamar Franco, no período 1992/93

A recomendação de John Maynard Keynes ao presidente Roosevelt, no “New Deal”: estimular a economia, gastando dinheiro, seja dinheiro emprestado ou impresso, não importa

O termo “espírito empreendedor” foi empregado, em 1936, pelo britânico John Maynard Keynes no seu livro “A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, considerada a mais importante obra de economia no século vinte. Assim, Keynes definiu o otimismo espontâneo que faz parte do perfil psicológico dos empresários, que preferem a ação destemida, em lugar da receosa passividade.

Essa linha de pensamento acabou sendo mundialmente difundida quando, ao tomar posse na presidência dos Estados Unidos, em 1933, Franklin Delano Roosevelt a incorporou ao seu leque de ações para fazer frente à devastadora recessão americana. A Grande Depressão (Great Depression) é considerada a pior desaceleração econômica historicamente ocorrida do mundo industrializado, estendendo-se de 1929 a 1939. Provocou a quebra da Bolsa de Nova York e o naufrágio de milhares de empresas.

Tão logo Roosevelt tomou posse na Casa Branca, Keynes divulgou uma carta aberta a ele, que se simpatizava com as ideias do economista britânico. Nela, apontou-se a necessidade de 1) se promover o consumo pessoal, cortando impostos; 2) baixar taxas de juros de longo prazo; 3) estimular a economia, gastando qualquer dinheiro, seja o emprestado ou o impresso, não importa. Essas recomendações ficaram conhecidas como “medidas anticíclicas”. Roosevelt as incorporou à série de programas que constituíram o que passou a ser chamado de “New Deal” (Novo Acordo).

O termo “espírito empreendedor” foi empregado, em 1936, pelo britânico John Maynard Keynes no seu livro “A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, considerada a mais importante obra de economia no século vinte. Assim, Keynes definiu o otimismo espontâneo que faz parte do perfil psicológico dos empresários, que preferem a ação destemida, em lugar da receosa passividade.

O retrospecto histórico foi mencionado pelo economista Paulo Haddad ao enfatizar que, em um quadro de recessão, como o que se verifica em decorrência da pandemia, cabem apenas os preceitos keynesianos, necessitando-se que se deixe de lado o apego à ortodoxia fiscal. “Agora”, recomendou o ex-ministro, “diante do colapso de uma considerável parcela do setor de bares e restaurantes, é preciso botar renda na mão do pessoal, tanto dos empreendedores quanto funcionários e consumidores. O efeito multiplicador da injeção de recursos vai empurrando a economia”.

Pouco ou nada adianta realizar investimentos de ativação da economia onde não há capital social: o retorno é baixo ou praticamente nulo, como ficou comprovado no plano Marshall, depois da segunda guerra

A resposta a esses estímulos é assegurada, como sublinhou Haddad, “quando existe o capital intangível, o que é o caso do setor de bares e restaurantes”. O capital intangível (ou capital social) viabiliza a adequada aplicação dos recursos advindos dos estímulos financeiros, canalizando-os para o desenvolvimento sustentável.

É constituído por uma entrelaçada teia de centros de capacitação profissional e gerencial, entidades de classe, escolas e universidades, cooperativas, instituições voltadas à pesquisa e às ciências, lideranças comunitárias, e espaços de interação humana, como é o caso de praças, parques, bares e restaurantes.

Quando o capital social é precário em uma região, os estímulos financeiros não surtem os efeitos almejados. A propósito, ele citou os investimentos que, no pós-II Guerra, foram direcionados à Itália pelo Plano Marshall, como foi chamado o Programa de Recuperação Europeia, colocado em prática pelos Estados Unidos. A resposta da região Sul italiana foi lenta, em função da precariedade decapitais intangíveis, em relação ao Norte do país, que desde então ingressou em uma era de prosperidade.

As cidades do Norte da Itália tinham uma cultura impressionante. Basta dizer que na região há muitas universidades de várias centenas de anos. Entre elas, está a mais antiga do mundo, a Universidade de Bolonha”. A alta cultura soma-se à coesão comunitária. Mesmo em uma região acentuadamente camponesa (como no final do século XIX era a do Vêneto, no nordeste italiano), o capital social produzia resultados inéditos.

Iniciativas pioneiras evidenciavam o vigor comunitário. Entre elas, por exemplo, a criação da primeira cooperativa leiteira do Reino da Itália, na província de Belluno, em janeiro de 1872.

“As cidades do Norte da Itália tinham uma cultura impressionante. Basta dizer que na região há muitas universidades de várias centenas de anos. Entre elas, está a mais antiga do mundo, a Universidade de Bolonha”. A alta cultura soma-se à coesão comunitária.

Mesmo em uma região acentuadamente camponesa (como no final do século XIX era a do Vêneto, no nordeste italiano), o capital social produzia resultados inéditos. Iniciativas pioneiras evidenciavam o vigor comunitário. Entre elas, por exemplo, a criação da primeira cooperativa leiteira do Reino da Itália, na província de Belluno, em janeiro de 1872.

Rubens Menin em 2015: “estamos assistindo acelerado derretimento do capital cívico que o Brasil já estava acumulando” Rubens Menin em 2015: “Estamos assistindo acelerado derretimento do capital cívico que o Brasil já estava acumulando”

Rubens Menin, fundador da MRV Engenharia e acionista majoritário da CNN Brasil: “Capital Cívico é o estoque de crenças e valores que estimulam a cooperação entre as pessoas e a estruturação das sociedades com base na confiança mútua entre os cidadãos, na segurança das avenças e na eficiência confiável das instituições"

No Brasil, o conceito do Capital Social (também chamado de Capital Intangível ou Capital Cívico) ainda é pouco difundido. Entre os propagadores brasileiros dessa abordagem, além do ex-ministro Paulo Haddad, alinham-se o economista André Lara Resende (que foi um dos mentores do Plano Real) e o empresário Rubens Menin, fundador da MRV Engenharia e acionista majoritário da CNN Brasil, que, há cinco anos, postou na rede social um artigo intitulado “A importância do Capital Cívico para uma nação”.

No texto, Menin define Capital Social como "o estoque de crenças e valores que estimulam a cooperação entre as pessoas e a estruturação das sociedades com base na confiança mútua entre os cidadãos, na segurança das avenças e na eficiência confiável das instituições". E ele então registrou no artigo, veiculado em agosto de 2015, a sua preocupação quanto ao “clima de incertezas’ em que o país se envolvia.

“No momento em que mais precisamos de lideranças confiáveis, de segurança para os consumidores, de confiança entre os investidores, e de um ambiente negocial eficiente e cooperativo, estamos correndo justamente na direção oposta, ou seja, estamos assistindo o derretimento acelerado do pequeno Capital Cívico que havíamos acumulado”.

A referência mundial na literatura sobre o Capital Social é Robert Putnam, o cientista e professor de Harvard, autor de catorze livro, entre os quais o maior best-seller é “Bowling Alone” (Jogando Boliche Sozinho), que vem sendo internacionalmente relançado e atualizado desde o ano 2000, mas ainda não foi editado no Brasil, evidenciando-se que, no país, o interesse pelo tema fica ainda restrito a apenas diminutos círculos acadêmicos. O subtítulo do livro é “O Colapso e Renascimento da Comunidade Americana”.

O economista Paulo Haddad vê que agora se ampliou ainda mais o risco de debilitação do pequeno Capital Cívico do país. O “derretimento” dos elos de cooperação entre as pessoas se dá também com o extermínio de 400 mil cafés, bares, bistrôs ou restaurantes, como consequência da forma que o setor tem sido tratado durante a pandemia. Esses estabelecimentos são, como afirmou o ex-ministro, fomentadores das conexões cívicas e, portanto, formadores de capital social.

Por isso, como relata Haddad, governantes de países europeus e asiáticos incluem em seus programas gerais de reativação da economia a concessão de empréstimos não reembolsáveis para a preservação dos negócios de bares e restaurantes, que são ativadores das interações humanas presenciais/digitais e, portanto, incrementadores dos capitais sociais (ou cívicos ou intangíveis).

Na edição de 16 de dezembro de 2020 da “The Atlantic”, uma das mais influentes revistas americanas, fundada em 1857, o jornalista Derek Thompson escreveu sobre os efeitos da pandemia na vida cívica.

“As pistas de boliche da América não apenas despovoaram; ficaram às escuras, junto com milhares de igrejas, restaurantes, bares, cafés, academias, teatros e quase todos os outros espaços físicos que poderiam preservar ou nutrir uma comunidade física.

A tecnologia digital gerou uma paisagem midiática em que cada um escolhe sua própria aventura, inundando os internautas com realidades alternativas, ao mesmo tempo em que seus laços comunitários se enfraquecem. A América está se desintegrando e essas peças não serão facilmente remontadas”.

Por sua vez, o jornalista Adam Gopnik, redator da revista “The New Yorker” (fundada em 1925), registrou em um de seus artigos: “Por capital social, os acadêmicos geralmente se referem a todas as partes da sociedade que, sem serem explicitamente políticas, promovem laços e pontes de simpatia e confiança comuns”.

Em outros trechos de sua análise, Gopinik mencionou que a cafeteria das grandes cidades tornou-se, a partir do século XIX, o espaço da confiança social, “que nos permite agir com uma ideia de cidadania, em vez de tribos”.

Em outras palavras, em vez de se relacionarem exclusivamente com as pessoas que se vestem, falam, e comportam da mesma maneira, além de compartilharem a mesma ideologia, como ocorre nas tribos, os cafés, bares e restaurantes possibilitam interações inclusivas, porque estão abertos à cidadania. Ou seja, à diversidade e pluralidade social.

A referência mundial na literatura sobre o Capital Social é Robert Putnam, o cientista e professor de Harvard, autor de catorze livros, entre os quais o maior best-seller é “Bowling Alone” (Jogando Boliche Sozinho), que vem sendo internacionalmente relançado e atualizado desde o ano 2000. A obra não foi ainda editada no Brasil, evidenciando-se que, no país, o interesse pelo tema fica ainda restrito a apenas diminutos círculos acadêmicos. O subtítulo do livro é “O Colapso e Renascimento da
Comunidade Americana”.

“A pessoa fica socialmente desamparada se for deixada por conta de si mesma”

Putnam já prestou consultoria aos então presidentes americanos George Bush (1989/1993), Bill Clinton (1993/2001), George W. Bush (2001-2009) e Barack Obama (2009/20), sendo que este lhe concedeu a Medalha Nacional de Humanidades, a maior homenagem do país por contribuições às ciências humanas.

O cientista político, professor e escritor afirma: “O capital social nos torna mais inteligentes, mais saudáveis, mais seguro, mais ricos e mais capazes de governar uma democracia justa e estável”. Ele também afirma que, “quando as sociedades têm mais confiança e normas cívicas, elas se tornam menos dependentes de instituições formais”.

O apogeu do capital social americano verificou-se ao longo dos anos 1960, começando a ser erodido quando as famílias passaram a ficar cada vez mais confinadas em casa, pouco a pouco reduzindo as atividades sociais e os momentos de lazer em grupo. A internet alargou a epidemia de isolamento e do individualismo.

Ao mesmo tempo, com a expansão das grandes cadeias de lojas departamentais, impactou negativamente a sobrevivência comércio do comércio lojistas de portas abertas às calçadas. “O indivíduo fica socialmente desemparado se for deixado por conta de si mesmo”, escreveu o autor de “Bowling Alone”.

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