É inegável o poder de transformação da atividade turística nos territórios, com consequentes implicações no âmbito econômico, social e ambiental, podendo levar cidades e regiões a elevarem seus índices de desenvolvimento.

No emaranhado número de serviços essenciais à atividade turística, no Brasil, desponta o setor de alimentação fora do lar, com 1 milhão de negócios formais e aproximadamente 6 milhões de postos de trabalho em todo país, de acordo com a Abrasel, realizando uma verdadeira valorização cultural por meio da gastronomia e suprindo a crescente demanda por alimentos de qualidade e com originalidade, em especial, pelos viajantes, que potencializam de sobremaneira o consumo e as transformações do setor.

Em 2019, registrou-se que 34% dos brasileiros possuíam o hábito do consumo de alimentos prontos fora do lar, direcionando 25% de sua renda média para o consumo de tais refeições, sem falar nos cerca de meio milhão de brasileiros atuando com o chamado street food, conforme dados do IBGE..

Enquanto no Brasil, busca-se implementar ações públicas e privadas no afã de transformar todo o potencial de um país continente em oportunidades de desenvolvimento econômico, com a entrada de turistas internacionais, em que pese a enorme diversidade de atrativos turísticos no país, alguns destinos mundiais como Veneza, Barcelona e Lisboa atingiram o pico do turismo de massa em 2018, o overtourism - a capacidade máxima de receber visitantes.

O Brasil, segundo a US News and Word Report, foi classificado em 2019 com a 9ª economia do mundo, oscilando na 40ª posição no raking de países que mais recebem turistas. Ainda neste mesmo ano, a Organização Mundial do Turismo aferiu que o tráfego de turistas no planeta foi superior a 1,65 bilhões.

Na América do Norte, contabilizou 149 milhões e na Europa, 682 milhões. América do Norte e Europa representaram mais de 51% do tráfego mundial. Na América do Sul registrou o fluxo de 140 milhões de turistas e no Brasil 7 milhões, ou seja, mesmo com suas dimensões e potencial, o país registrou apenas 5% do fluxo de turistas internacionais do continente sul americano.

Ainda em 2019, os brasileiros registraram um gasto no exterior na cifra de US$ 19 bilhões, enquanto a entrada de turistas internacionais contribuiu com o US$ 5,8 bilhões para a economia nacional. Tal quadro representou um déficit de US$ 12,2 bilhões na balança comercial do turismo brasileiro.

O mercado já havia nos revelado fortes tendências de consumo em 2019, em especial no turismo, uma delas é a valorização dos processos sustentáveis de serviços e produtos, a exemplo do alimento, onde houve um despertar de curiosidade e preocupação do consumidor, que vão desde os métodos de produção dos insumos elementares, até a técnica do profissional que finaliza a apresentação de um prato, frente a crescente corrida pela produção de alimentos no mundo, em decorrência das demandas dos residentes e da competitividade do setor de turismo.

Tais tendências vêm sendo conduzidas por novos padrões e valores de comportamento, sociedade contemporânea, implicações tecnológicas e de segurança alimentar.

Eis que a ameaça sem precedentes surgiu, um vírus pouco conhecido pela sociedade científica mundial, com alto grau de transmissão, jamais visto pelas últimas gerações, e perigosamente neste cenário de trocas sociais e econômicas no território mundial, tal ameaça ganhou uma contribuição peculiar para que pudesse se perpetuar no planeta: o
fenômeno turístico.

Afora o drama humano, um dos maiores impactos da pandemia aferiu-se na economia, proporcionalmente com maior incidência, nos serviços atrelados à atividade turística,
como os transportes, em especial o modal aéreo, que apresentou em abril uma queda acentuada de 80% no mundo e até 92% no Brasil, segundo o Observatório Global do setor aéreo; e no setor de alimentação fora do lar, com redução média de 81% no país, segundo pesquisas da Abrasel.

Análises preliminares apontavam para uma recuperação lenta e desanimadora do mercado, entretanto, a atividade turística se apresenta mais resiliente, e as inserções de enfrentamento à pandemia do Coronavirus são seguidas pelo poder motivador humano, consequente das próprias medidas de isolamento: a necessidade de
lazer e entretenimento.

Segundo dados da Pew Research Center, cerca de 93% da população mundial vive em países que adotaram algum tipo de medida de restrição de viagem, fechando totalmente suas fronteiras para estrangeiros.

Tal medida implicou a impossibilidade de fluxo transfronteiriço de 3 bilhões de pessoas ao redor do mundo, possibilitando em algumas nações, apenas o fluxo nos territórios nacionais, já na fase de flexibilização das atividades econômicas, transformando totalmente as rotas de consumo de alimentos, do pronto fora do lar, para a produção e consumo no lar.

Nesse cenário heterogêneo da atividade turística mundial, considerando o volumoso déficit da balança comercial do turismo no Brasil, considerando as possíveis medidas de
recuperação do setor aéreo, o marketing positivo dos destinos e serviços turísticos brasileiros, prevê-se medidas de mercado com foco na valorização e consumo do próprio produto nacional pelos brasileiros, e, pela necessidade humana, um segundo redescobrimento do Brasil.


*Sandro Belo é turismólogo pesquisador e especialista no mercado de alimentação fora do lar.

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