A proposta de extinguir, por decreto, a escala 6×1 tomou o centro do debate público sob um apelo legítimo: a busca por mais tempo para a família e qualidade de vida. É compreensível que o tema gere repercussão, pois toca em expectativas profundas. No entanto, decisões que alteram a estrutura do mercado de trabalho não podem se apoiar no entusiasmo das redes; exigem uma análise fria dos efeitos reais sobre o custo de vida e o funcionamento do País hoje.
Um equívoco central nesta discussão é tratar dois temas distintos como se fossem um só. Reduzir a jornada semanal de 44 para 40 horas é uma pauta já enfrentada por diversos setores e países por meio de negociações e transições graduais. Já a proibição do trabalho em seis dias por semana é uma intervenção radical, que nenhum país do mundo impôs por meio de lei. Ela ignora a dinâmica de serviços que a sociedade demanda de forma ininterrupta, independentemente do calendário.
O setor de serviços é o verdadeiro motor da economia brasileira, respondendo por cerca de 70% do PIB nacional. Para compreender a magnitude do impacto de mudanças na jornada de trabalho, é preciso analisar justamente esse segmento, que engloba bares, restaurantes, clínicas, serviços públicos e farmácias. Essas atividades operam muitas vezes sete dias por semana porque as necessidades da população em relação à alimentação, ao transporte e aos cuidados com a saúde são ininterruptas. Quando a legislação ignora essa realidade operacional, o impacto é imediato e transborda para além do empregador, atingindo toda a cadeia econômica e o bolso do consumidor.
No setor de alimentação fora do lar, o peso da mão de obra é determinante. Obrigar estabelecimentos que funcionam seis dias a adotarem escalas rigidamente limitadas a cinco significa, inevitavelmente, contratar mais pessoal para manter o mesmo nível de atendimento. Na prática, o custo da folha de pagamento pode subir em cerca de 20%. Esse valor não desaparece: ele pressiona os preços (que, nos cálculos da Abrasel, poderiam crescer em cerca de 7%) e acaba rateado por toda a população.
O resultado é a elevação do custo de vida. Serviços encarecem, e as famílias de menor renda são as primeiras a sentir o golpe. Em atividades como a saúde, onde a mão de obra é o insumo principal, o reajuste necessário pode chegar a 15%. Não se trata de uma projeção abstrata, mas de uma consequência matemática de uma mudança mal calibrada.
Soma-se a isso um fator crítico: a escassez de mão de obra. O país já enfrenta dificuldades para encontrar profissionais qualificados. Ao exigir mais pessoas para a mesma operação, cria-se uma disputa predatória, em que grandes empresas retiram trabalhadores de pequenos negócios, aprofundando desigualdades regionais. O restaurante de bairro reduz o horário; o atendimento médico encurta; o técnico para religar a luz do bairro não está lá. Onde o serviço já era frágil, ele simplesmente desaparece.
De modo paradoxal, a promessa de bem-estar pode se inverter. Sem serviços próximos, o trabalhador é forçado a deslocar-se mais para consumir ou trabalhar, perdendo, em transporte, o tempo que ganharia em folgas. Comunidades perdem conveniência; e a vida cotidiana torna-se mais cara e difícil.
Defender cautela não significa pregar o imobilismo. O Brasil deve, sim, discutir produtividade, tecnologia e jornadas equilibradas. Mas esse avanço exige diálogo e dados, não impulsividade. Preocupa ver uma mudança dessa magnitude ser empurrada com urgência constitucional, como se fosse possível resolver, em semanas, um tema que altera a engenharia social do país.
Melhorar a vida do trabalhador é um objetivo nobre demais para ser tratado com superficialidade ou sob o calor de calendários eleitorais. Precisamos de profundidade para evitar que soluções aparentemente fáceis criem problemas ainda maiores.
*Artigo publicado originalmente no portal Mercado & Consumo
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