abrasel

Após dominar entrega de refeições, empresas oferecem soluções para dia a dia do setor, mas concentração de dados preocupa restaurantes; tática de ataque pode, porém, ser defesa contra entrada de outros rivais

Possível chegada de novos rivais, como Magalu e B2W, está forçando apps de delivery a fornecer ferramentas de gestão mais completas. Foto: Daniel Teixeira/Estadão


O fechamento de restaurantes na quarentena mudou o jogo no setor de alimentação. Menos gente comendo na rua, mais pedidos de delivery – não é à toa que os apps de entrega de refeições cresceram bastante nesses últimos seis meses. Só o iFood, líder do setor, chegou em junho a 39 milhões de pedidos mensais, em alta de mais de 40% com relação a março deste ano. Mas as mudanças vão além da porta e já chegam ao balcão dos restaurantes.

Isso porque, nos últimos meses, as grandes startups de delivery também começaram a cuidar não só da logística, mas também de outros aspectos do funcionamento de um restaurante, como gestão financeira, controle de estoque e até receber e gerenciar pedidos de pratos.

Quem deu o passo mais ambicioso até agora foi o iFood: em agosto, a gigante do grupo Movile comprou a eComanda, startup que desenvolveu uma plataforma de gestão para restaurantes e bares. Entre as ferramentas disponíveis, estão comanda eletrônica, gestão de frente de caixa, controle de estoque e de fluxo de caixa e até mesmo a possibilidade de criar um programa de fidelidade. A empresa planeja oferecer todos os recursos aos restaurantes, mas o foco inicial será em gestão de frente de caixa e controle financeiro.

“Quanto mais a operação de um restaurante cresce, maior fica sua complexidade”, diz Lucas Lorenzato, diretor de novos negócios do iFood. “Fazia sentido oferecer ferramentas para os pequenos e médios, que ainda controlavam tudo no papel ou no Excel.” Segundo ele, a estimativa é de que cerca de 50% dos 212 mil restaurantes cadastrados no app precisem de serviços do tipo.

Já Rappi e Uber Eats apostaram em sistemas que permitem aos estabelecimentos criarem canais de vendas independentes, fora dos aplicativos. Nos dois casos, porém, as plataformas acabam oferecendo ferramentas de gerenciamento de pedidos e controle de vendas, que vão além de um sistema de entregas. “A pandemia trouxe muitos parceiros que não tinham experiência”, diz Sérgio Saraiva, presidente da Rappi no Brasil. Ele vê nas plataformas de gestão uma maneira de fortalecer os parceiros e reduzir falhas ou desistências.

Desequilíbrio


O avanço dessa estratégia deixa os restaurantes em um dilema. Por um lado, muitos não têm ferramentas modernas de gestão ou um serviço de inteligência para criar estratégias a partir dos dados gerados com as refeições por entrega. Do outro, há o temor de que ampliar as parcerias com startups pode aumentar a dependência dos estabelecimentos ou estrangular seus ganhos – uma reclamação frequente no setor é a de que a taxa cobrada pelos apps com venda e logística, entre 20% e 30% do valor da refeição, é bastante pesada.

“O delivery foi uma excelente porta de entrada para os apps criarem uma relação com os restaurantes. E há atividades que os estabelecimentos ainda têm dificuldade de executar”, afirma Sérgio Molinari, presidente da consultoria Food Consulting. “No entanto, além das taxas, é possível que o restaurante possa perder o domínio sob o cliente, que passa a ser do ecossistema, do aplicativo.”

Por enquanto, a tendência é que a relação avance para além da logística, mesmo que o restaurante não esteja plenamente satisfeito. Isso porque as três principais empresas do setor – iFood, Rappi e UberEats – oferecem essas plataformas de gestão sem cobrar novas taxas. A política deve se manter até o fim do ano, dizem as startups, para entender qual será o modelo de cobrança.

Representante do setor, com cerca de 10 mil associados, a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) não vê problemas nos apps oferecerem novos recursos, mas pede transparência na nova relação.

Para a entidade, ao acumularem informações sobre os restaurantes , há o temor de que as plataformas conheçam melhor a operação do que os próprios donos. “O que não pode acontecer é gerarmos informações úteis e ainda pagarmos pelas ferramentas”, explica Célio Salles, conselheiro da Abrasel.

As empresas afirmam não estar de olho nos dados, mas Salles diz que esse pode ser mais um canal de receita das plataformas. “Um app de delivery pode vender alguns tipos de serviços: captura de clientes, logística, publicidade, sistemas de gerenciamento e venda de informações”, explica o representante dos restaurantes. É possível que, nesse cenário, os dados sejam um pilar tão importante do negócio quanto a própria logística.

E isso pode afetar o equilíbrio, uma vez que as plataformas teriam mais poder do que uma série de pequenos negócios. É uma realidade brasileira, afirma Molinari, da Food Consulting. “Nos EUA, onde 70% dos restaurantes são de redes, a relação tende a ser mais equilibrada. No Brasil, esse número é de 15%”, diz. “O restante dos estabelecimentos são pequenos, quase de subsistência, então a relação com os apps fica mais desigual.”

Defesa e ataque

Mas ver os lançamentos das startups na área de gestão só como um ataque pode não ajudar a entender o que se passa no mercado. Há quem diga que seja um movimento de defesa. “Os apps de comida não estão invadindo território”, diz Salles. “Ao contrário, estão trabalhando com a hipótese da chegada de rivais.”

E os novos concorrentes não são “peixe pequeno”. Dois deles são íntimos do mundo digital – e das compras. Um é o Magazine Luiza, que comprou recentemente a startup de delivery AiQFome, bastante popular no interior do País. Outro é a B2W, que controla nomes como Lojas Americanas e que passou a oferecer, em seus aplicativos, entrega de refeições prontas como lanches da rede Bob’s.

Outro gigante que pode surgir no setor deve nascer a partir da compra da Linx pela Stone, em uma união de sistemas de gestão e plataforma de pagamentos, respectivamente. Na visão de fontes do mercado ouvidas pelo Estadão, o passo para criar um serviço de delivery seria quase natural.

Dessa maneira, oferecer bons serviços de gestão acaba virando um aliado dos apps de comida para manter o parceiro. “Mostrar serviços relevantes e de valor tangível é uma das formas de manter o engajamento e a retenção a longo prazo dos restaurantes”, explica Thaís Azevedo, diretora de marketing do Uber Eats.

Lorenzato, do iFood, compartilha da visão. “(O que estamos fazendo) é uma tentativa de demonstrar para os restaurantes quem é o melhor parceiro. É óbvio que é uma forma de defesa. Mas a questão não é só se defender, também é para que o ecossistema evolua”, argumenta o executivo. E se os apps de comida precisam se defender, isso significa que os restaurantes podem trocar de lugar na mesa, ficando com a faca e o queijo para negociar. É o que espera Salles, da Abrasel. “Vemos com bons olhos o aumento da concorrência. Isso deve ajudar a equilibrar as forças entre restaurantes e plataformas.”

Fonte: Estadão

Comentários