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Arquiteto e urbanista reconhecido mundialmente foi peça fundamental na concepção do Manifesto da Abrasel "A Partir das Ruas, Simplifica Brasil"

Jaime Lerner, o presidente-executivo da Abrasel, Paulo Solmucci e o então presidente do Conselho de Administração Nacional da Abrasel, Pedro Hoffmann. Crédito: Ignácio Costa.


O arquiteto e urbanista Jaime Lerner, ex-prefeito de Curitiba e ex-governador do Paraná, morreu nesta quinta-feira (27) aos 83 anos. Arquiteto de formação, ele foi três vezes prefeito de Curitiba e ficou internacionalmente conhecido pela implementação do sistema integrado de transporte público da capital paranaense, na década de 1970.

A morte de Lerner encerra a obra em vida de uma pessoa que transformou mundialmente Curitiba em um exemplo de planejamento urbano. Em uma pesquisa internacional realizada pela respeitada publicação Planetizin, de Los Angeles, Jane Jacobs e Jaime Lerner foram nomeados como os dois mais influentes urbanistas de todos os tempos.

Jaime Lerner foi peça fundamental na concepção do Manifesto A Partir das Ruas, Simplifica Brasil, um documento organizado pela Abrasel onde se discute a desburocratização do empreender e a qualidade de vida nas cidades brasileiras. O manifesto mostra que é perfeitamente possível a todos nós usufruir do imprescindível direito a uma cidade sustentável, segura, saudável, socialmente diversificada, bem no jeito Abrasel de ser. Clique aqui e leia na íntegra o Manifesto Simplifica Brasil.

Para Paulo Solmucci, presidente-executivo da Abrasel, "Jaime Lenner foi genial na sua terra e encantou o mundo, sendo considerado um dos maiores urbanistas de todos os tempos. Ele foi nosso curador e o primeiro a assinar o nosso manifesto Simplifica Brasil. Uma perda muito grande", diz.

Crédito: Danilo Viegas

Confira abaixo uma reportagem completa da Bares & Restaurantes sobre o legado de Jaime Lerner.

Praças e Parques

Depoimento de Nicolau Klüppel (já falecido)

“Todo rio tem direito de encher”, diz ele. Engenheiro, descendente de imigrantes alemães, um dos integrantes do primeiro time do arquiteto Jaime Lerner, Nicolau Klüppel liderou, de 1972 em diante, a criação de 31 parques e bosques em Curitiba, totalizando 19 milhões de metros quadrados. Até então, o único parque da cidade era o Passeio Público, inaugurado ainda no Império, em 1886, situado na área central da capital paranaense, com extensão de 70 mil metros quadrados.

O que motivou Klüppel e o grupo de Lerner a fazer o equivalente a 270 novos “Passeios Públicos”, foi o exemplo de São Paulo. Quer dizer, o exemplo do que não deve ser feito, ressalva o engenheiro. Com esse trabalho, realizado ao longo de três décadas, de 1972 a 2004, eis o resultado: enquanto Curitiba tem 64,5 m² de área verde por pessoa, São Paulo oferece a cada um de seus habitantes o minguado 1,2 m² de verde. O índice mínimo recomendado pela Organização Mundial de Saúde é de 12 m² de área verde per capita. Daí a razão de, volta e meia, Curitiba ser citada entre as dez cidades mais sustentáveis do mundo.

O pecado capital de São Paulo foi obstinar, durante os últimos 90 anos, em abrir avenidas, furar montanhas e erguer estradas aéreas, em prol do automóvel, a maravilha do século XX. A pauliceia queria ser a New York City de Robert Moses, o poderoso homem que almejava um planeta trançado por vias expressas. De 1924 a 1968, Moses construiu 670 quilômetros delas. Sem enxergar nada além de Moses, os paulistanos jogaram todas as suas fichas no rodoviarismo.

Rede Integrada de transporte

Depoimento de Carlos Ceneviva , o urbanista da equipe de Lerner que, com ele e o arquiteto/urbanista Rafael Dely (falecido), desenharam a rede e a colocaram na vida cotidiana dos curitibanos:

“Em um processo de mais de vinte anos, acabou se formando a rede integrada de transporte de Curitiba. Hoje, há 186 cidades no mundo que adotaram soluções inspiradas no modelo de Curitiba. Uma cidade é algo que nunca está pronto, nunca estará. Vai sempre se modificando. A cada problema que surgia, criávamos uma solução. Tudo se criou aqui. A canaleta (via exclusiva), depois a integração, os terminais fechados, a ideia de não se comprar um novo bilhete para um novo embarque, sem passar por outra catraca, a bilhetagem automática, as plataformas de embarque no mesmo nível do ônibus. E, paralelamente, o urbanismo, como um conjunto. Os calçadões de pedestres, os parques, as redes de ensino e saúde, a separação e reciclagem do lixo. As pessoas passaram a ver as mudanças acontecendo, de forma rápida, sem demora, porque eram soluções simples, que funcionavam. Alterou-se a relação dos habitantes com a cidade, fazendo com que os moradores se orgulhassem dessas melhorias e da repercussão das mudanças na vida delas”.

O leque de ações

Além do inovador BRT (uma criação da equipe Lerner, que levou-a para Bogotá, onde ganhou o nome de Milenio), o mosaico da pacífica revolução urbana de Curitiba compreendeu o uso de solo, a mescla das funções de moradia, trabalho e recreação, a preservação do patrimônio cultural e ambiental, a reciclagem do lixo.


Design urbano

Depoimento do arquiteto Manoel Coelho

Jaime Lerner inventou o design urbano brasileiro. Isso quer dizer que fez algo sem precedente: sinalizou e espalhou mobiliários em toda uma cidade, de modo orgânico e não apenas em um eixo viário. Coelho faz parte da turma de arquitetos de Curitiba. Seu design acompanhou e deu ainda mais sentido à revolução do urbanismo da capital paranaense, liderada por Jaime Lerner. Durante 33 anos, compreendidos entre 1971 e 2004, pulverizou centenas de sinais e equipamentos sobre os mais de 15 mil quilômetros quadrados da superfície do município.

A primeira experiência de sinalização em escala municipal, acompanhando todo o sistema viário de Curitiba, foi a afixação de cartazes plastificados e aderentes aos postes, portanto resistentes ao tempo e às suas intempéries, em cada uma das artérias da malha habitável, inclusive nos pontos extremos da periferia. Ou seja, em becos, travessas, servidões de passagem, vielas, praças, pracinhas, ruas e avenidas. Entregou certidão de nascimento e de batismo ao mais recôndito e minúsculo logradouro da capital paranaense, antecipando que o ônibus também chegaria lá. E chegou.


Origem e legado

Nasceu em 17 de dezembro de 1937, em Curitiba. O registro de sua certidão, no entanto, foi feito 13 dias depois, constando a data de 17 dezembro. Filho de imigrantes poloneses, que chegaram ao Brasil em 1934. Os pais, Felix e Elza, abriram uma pequena loja nos fundos da casa, na Rua Barão do Rio Branco, no centro da capital paranaense. Formou-se em engenharia civil e arquitetura pela Universidade Federal do Paraná. No período de um ano, entre 1962/6 3, estudou e estagiou em Paris. Frequentou o curso sobre Planejamento Urbano no Ministère de La Construção e estagiou no escritório de arquitetura, urbanismo e design Candilis-Josic-Woods. Presidiu o Instituto de Planejamento e Pesquisa de Curitiba (IPPU) em 1968/69. Foi prefeito de Curitiba em três mandatos alternados e governador do Paraná em duas gestões consecutivas. Em 1990, recebeu prêmio do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Em 2002/2005, presidiu a União Internacional de Arquitetos (UIA), sediada em Paris, que congrega mais de 1,3 milhões de profissionais em todo o mundo.

As ruas de Jaime Lerner

Nos livros de Jaime Lerner, entre eles “O que é ser urbanista (ou arquiteto de cidades)”, sobressai-se o seu fascínio por ruas de moradias e comércio aberto para as calçadas, com o trabalho e a escola nas vizinhanças de diferentes níveis de renda e de idade. É a cidade que atrai turistas o ano inteiro. Qualquer cidade só consegue isso se for boa para seus moradores.

“De todas as propostas do urbanismo contemporâneo e espacial, eu fico com a rua tradicional”.

“Sempre considerei este tema – a rua – o início do raciocínio sobre cidade, elemento básico. Em 1972, no segundo ano da minha primeira gestão como prefeito de Curitiba, decidimos fechar para automóveis um trecho central da Rua XV de Novembro, que passou a ser conhecida como Rua das Flores, a primeira rua para pedestres do Brasil. Foi difícil conhecer que aquilo seria bom para a cidade. Tivemos de fechar a rua em 72 horas, num fim de semana, para evitar protestos. Começamos a obra na noite de sexta-feira, e na segunda-feira à noite a rua estava fechada. Depois de alguns meses, todos pediram que eu aumentasse a extensão da rua para pedestres”.

“A cidade democrática é a cidade sem guetos. A democracia requer a mistura. É preciso exaltar a mistura, que traz benefícios colaterais e até mesmo aos que estão no topo da pirâmide socioeconômica. Guetos são, por exemplo, os conjuntos habitacionais construídos nas periferias remotas. Ou os condomínios de luxo dentro das cidades”.

“A melhor forma de segurança é conhecer seu vizinho. Em nossos projetos habitacionais, sempre optamos por permitir a mistura de moradores com diferentes níveis de renda. Um dos bens intangíveis de Curitiba é a vizinhança diversificada”.

“O componente principal de uma cidade mais humana é a mistura. Mistura de funções, mistura de renda, mistura de idade etc. Quanto maior a mistura, mais qualidade de vida”.

“A sociedade é a cidade. E a cidade é a rua. Rua como integração de funções. A rua é minha obsessão. Cresci numa rua que era a porta de entrada e uma espécie de síntese de minha cidade, abrigando a estação ferroviária, a Assembleia dos Deputados, redações de jornais, emissoras de rádio, hotéis, comércio e um terreno vago, que era endereço certo para espetáculos circenses. Ali naquela rua fiz meu curso de fantasia e meu curso de realidade. Ali descobri muito cedo que a rua será sempre a síntese da cidade e de seus habitantes, porque é o cenário do encontro, em que o homem exercita o seu lado mais generoso e também onde manifesta suas angústias”.

“Os movimentos do urbanismo contemporâneo e as visões futurísticas não criaram nada melhor do que a rua. Rua que é a alma de cada bairro, o cenário perfeito para uma estrutura de vida e trabalho. O caminho por onde todas as cidades começaram poderá ser também a trilha do seu futuro”.

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