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Por Paulo Solmucci, presidente executivo da Abrasel



A pandemia do novo coronavírus provocou uma ampla devastação financeira e operacional nos bares e restaurantes. Estragaram-se estoques de produtos alimentícios. Acumularam-se impagáveis dívidas de aluguéis, salários, boletos e prestações bancárias. Diante dessa catastrófica situação, agora é de se esperar que os governadores e prefeitos anunciem com antecedência de dias, e até de uma semana, a data escolhida para a suspensão da quarentena.

O aviso antecipado possibilitará a recomposição dos estoques e a reorganização geral dos estabelecimentos. Também propiciará um tempo minimamente necessário ao escalonamento das dívidas juntos aos credores bancários, aos locadores dos imóveis comerciais e às companhias de bebidas. Mesmo que tenham sido anunciados parcelamentos de impostos (como o IPTU e a Taxa de Fiscalização da Vigilância Sanitária), esses encargos continuam pesando no passivo dos donos de bares, restaurantes, lanchonetes, cafés.

Subitamente, desapareceu o faturamento. Mas a roda das despesas continuou a girar. É o telefone, a internet, TV a cabo, água, luz, vigilância terceirizada. Enfim, um calhamaço de contas. Os salários e encargos trabalhistas são os mais sensíveis e tormentosos entre todos os passivos que vão se acumulando. São a angústia maior dos empresários. Aí pesa demais o lado humano. A relação de trabalho no ambiente amigável do setor da alimentação fora do lar acaba formando uma aliança fraterna entre empregadores e empregados.

Como fazer o pagamento dos funcionários se o dinheiro sumiu? Para se compreender esse profundo drama, devemos saber que a alimentação fora do lar tem um milhão de estabelecimentos de portes extremamente diferenciados. Eles estão em qualquer parte do território urbano, das áreas de alta renda às periferias das periferias. No mundo empresarial, nenhuma outra atividade espelha tão realisticamente o que é o Brasil. Em todo o setor, 65% dos negócios encontram-se na mais completa informalidade, e 80% faturam menos de R$ 20 mil por mês.

Como pagar aos funcionários, amigos de tantas jornadas? O que fazer? No dia 16 de março, bati às portas do Palácio do Planalto, sendo atendido pelo presidente Jair Bolsonaro. A seguir, o ministro da Economia, Paulo Guedes, juntou-se à conversa. Expus-lhes o drama do iminente desemprego em massa que começava a rondar o setor. Da troca de ideias, nasceu a sugestão de se utilizarem recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) para, temporariamente, se solucionar o pagamento dos empregados das micro, pequenas e médias empresas da alimentação fora do lar, em um socorro que se estenderia aos demais setores. O desembolso seria realizado a fundo perdido e na duração de três meses.

No primeiro dia deste mês, portanto em apenas duas semanas após o encontro que tivemos em seu gabinete, o presidente Bolsonaro anunciou, em tempo recorde, a ousada e flexível medida de manutenção de empregos, que havia sido cogitada por ele e seu ministro da Economia. Fica assegurado o pagamento dos salários de funcionários dos bares e restaurantes na presente quinzena de abril, com recursos oriundos do FAT, conforme se cogitou. Isto é, sem que a empresa tenha de assumir qualquer débito.

Equacionou-se, assim, a mais emergente providência para se evitar o fechamento de milhares de bares e restaurantes. Agora, passemos à etapa seguinte. Como reabrir os restaurantes se eles estão todos desarrumados, sem estoques e atolados nas dívidas que se amontoaram na vigência das normas do distanciamento social, impostas pelo coronavírus? Pois é chegada a vez de os governadores e prefeitos se prepararem para o anúncio antecipado da volta à normalidade das ruas. É preciso que se faça um mutirão para se apararem todas as arestas. Por exemplo: cabe às prefeituras disponibilizar o vale-transporte. Sem isso, o empregado não consegue chegar ao local de trabalho.

Feitos esses arranjos, as casas estarão rearrumadas para o nascer de um novo tempo. Em uma primeira fase, até a completa restauração do ambiente de saúde, continuarão a ser praticadas as normas. Guarda-se o espaço mínimo de um metro entre as cadeiras e de dois metros entre as mesas. Gratuitamente, oferta-se o álcool em gel aos clientes. Habitualmente, redobra-se a limpeza do que já está limpo. São muitas as lições deixadas pela pandemia. Uma das mais preciosas delas é a de a gente cuidar bem da nossa saúde social. Os bares e restaurantes são o espaço aberto de viver a vida de modo solidário.

Por favor, senhoras e senhores do mundo oficial. Avisem-nos, com antecedência, quando suspenderão a quarentena. As nossas casas têm de estar um brinco, brilhando como um ampliado e reluzente espaço dos laços de afeto.

Fonte: UOL

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