Perdem os pequenos negócios, empurrados para a precarização da operação ou, em muitos casos, para o fechamento
A discussão sobre a mudança da escala 6x1 precisa começar pelo impacto real que ela provoca na economia do dia a dia. Quando se reduz a jornada sem reduzir o custo total, o efeito é imediato: há aumento direto do custo da mão de obra. Na prática, isso significa algo em torno de 20% a mais de custo para as empresas, o que acaba se refletindo em aumento de preços, estimado em cerca de 7%, e em redução da demanda. Esse encadeamento é simples, mas muitas vezes ignorado no debate público: custo sobe, preço sobe, consumo cai.
A redução de um dia na escala de trabalho também não é neutra do ponto de vista operacional. Para manter a oferta de serviços, os estabelecimentos precisam de mais gente trabalhando por dia. Isso representa, novamente, algo próximo de 20% a mais de força de trabalho. Essa mão de obra simplesmente não existe em abundância. Não se cria trabalhador por decreto. Se falta gente, o mercado passa a disputar os mesmos profissionais, elevando ainda mais os custos.
E, quando essa disputa acontece, é preciso perguntar: onde buscar as pessoas? A resposta é dura, mas objetiva. Busca-se no concorrente. Quem tem mais capacidade financeira consegue atrair mão de obra pagando mais. Quem não tem, perde. Esse movimento não gera mais empregos de forma sustentável; apenas redistribui trabalhadores, favorecendo quem tem mais fôlego financeiro e fragilizando quem opera com margens apertadas.
É aí que fica claro quem ganha e quem perde essa guerra. Ganham os negócios maiores, mais capitalizados, que conseguem absorver o aumento de custos e disputar mão de obra. Perdem os pequenos negócios, que acabam empurrados para a precarização da operação ou, em muitos casos, para o fechamento. E perde também o consumidor de baixa renda, que sente o impacto duplamente: com preços mais altos e com a redução da oferta de serviços no seu bairro.
Quando um pequeno restaurante fecha ou reduz seu funcionamento, o dano não é abstrato. Perde o empresário, perdem os trabalhadores, perde a comunidade. A oferta de serviços essenciais diminui, o dinamismo econômico local enfraquece e o desemprego aparece como consequência indireta. O consumidor de maior renda até consegue absorver parte desse impacto. O consumidor mais pobre sofre muito mais, porque não tem margem financeira para lidar com o aumento de preços nem com a ausência de serviços próximos.
Por isso é fundamental que esse debate seja feito com responsabilidade e consciência de seus efeitos colaterais. Não se trata de ser contra avanços sociais, mas de entender que boas intenções não anulam consequências econômicas. Uma mudança dessa magnitude, se mal calibrada, pode gerar mais exclusão, menos emprego e mais desigualdade. Nosso papel é alertar a sociedade e os tomadores de decisão sobre esses riscos, para que qualquer escolha seja feita de forma serena, informada e equilibrada.
*Artigo publicado originalmente em O Globo
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