Chef francês relata sua história com o Centro de São Paulo e fala sobre como um restaurante pode mudar o ambiente urbano quando se sabe aproveitar os espaços já existentes

Você pode estar se perguntando o que Olivier, o Esther e o centro de São Paulo têm a ver? Bem a história deles se encontra quando o chef francês decide morar no centro de SP Foto: Divulgação

Por Gabriel Lacerda

“Há um gosto de vitória e encanto na condição de ser simples. Não é preciso muito para ser muito”. A frase dita pela arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi ilustra bem o contexto de que é preciso saber aproveitar todos os espaços ao entorno de onde se está inserido. O simples pode trazer à vida locais que podem ter perdido sua essência e ter sido deixados de lado ao longo dos anos.

Mesmo em grandes e movimentadas cidades, locais públicos podem cair em esquecimento e perder todo o brilho. Para se ter uma ideia: no centro da capital paulista, em 1976, Olavo Setúbal, então prefeito da cidade, decidiu fechar cerca de vinte das principais vias da região, limitando o acesso de veículos automotores. Com isso, a autoridade tentou estimular a população a frequentar a localidade por meio de transporte público ou a pé. Porém a ação não deu muito certo e muitos comerciantes, reclamando da falta de clientes, migraram para outros locais de São Paulo.

E isto aconteceu em uma região que era o coração financeiro da cidade paulista, onde muitos edifícios foram construídos e começaram a ser frequentados pela elite paulistana em décadas anteriores. Eram artistas, intelectuais da época, músicos, jornalistas que se juntavam para aproveitar toda a característica boêmia da cidade. Neste período, no Brasil, motivado por tendências estrangeiras, iniciou-se um rompimento de classes econômicas e a migração da elite paulista para bairros mais afastados do centro paulista. Com isso, a área começou a ficar cada vez menos frequentada e estigmatizada, sendo considerada de risco à segurança para se visitar e viver.

Mesmo assim, o centro de São Paulo possuía charme e despertava o interesse de pequenos e médios empresários para alugar salas nos edifícios da região, como o Esther. A construção de 1938, que foi uma das pioneiras em seguir o modelo modernista de arquitetura modernista no Brasil, foi criada para ser um prédio que abrigasse a sede de uma empresa açucareira, que ficou ali até 65 e, para reduzir custos, voltou para o interior de São Paulo.

Com o passar do tempo, o prédio foi perdendo todas suas características e chegou até ser considerado cortiço. Parte histórica do centro de São Paulo, o Esther foi tombado e começou a ser ocupado por escritórios de advocacia, contabilidade e uma mesquita. Apesar de toda a movimentação, o edifício ainda estava degradado e nada aconchegante. Até que em 2016 uma mudança com toque francês acontece e a história do centro de São Paulo e do edifício Esther começam a mudar.



Da França para o Brasil

O que era para ser apenas um período de férias acabou se transformando em um processo de naturalização e conquista de cidadania brasileira. A história do chef, padeiro e empresário Olivier Anquier no Brasil começou em 1979, na cidade do Rio de Janeiro e permanece até hoje. “Cheguei no Brasil para ficar só um mês. Tinha pouco dinheiro e não sabia falar uma palavra em português. Mas eu me apaixonei, apaixonei pelo jeito do brasileiro de encarar a vida, enfrentar os problemas, a forma que eles se comunicavam e resolvi ficar. Adiava sempre minha volta à Paris, porém comecei a ficar sem dinheiro e pensei: se quero ficar, preciso trabalhar, mas como conseguir emprego sem saber falar uma palavra se quer? Então, certo dia, estava passeando pela praia e ouvi alguém falando francês. Me aproximei e começamos a conversar. Somos amigos até hoje e na época ele era cônsul da França e me indicou para ser modelo em São Paulo. Me mudei e comecei minha vida no Brasil”, relata Olivier Anquier.

Ao pisar na capital paulista, o chef francês conta que ficou encantado com a cidade e que foi o destino o levou até ali. “Eu sou de criação urbana, mas ser urbano é viver e conviver com a rua. Quem vive em condomínio ou no Jardins não é urbano! Quando cheguei no centro de São Paulo eu me senti em casa. Existe a família que a gente nasce e a família que escolhemos, aqui fiz amigos que me transformaram no que eu sou hoje. Foi o destino”, fala o empresário.

Entretanto, você pode estar se perguntando o que Olivier, o Esther e o centro de São Paulo têm a ver? Bem a história deles se encontra quando o chef francês decide morar no centro de SP. “Em São Paulo, efetivamente, tem uma categoria que mora justamente do lado da Paulista (a avenida), e não se conforma em valorizar o centro. Valorizam o centro de Paris, Milão, Nova York, Barcelona. Valorizam pra caramba. Aqui, eles não querem saber. Como muitos fugiram do centro, eu fiz exatamente o inverso. Já há muitos anos moro na Praça da República. Abri, no teto, na cobertura do Edifício Esther, o Esther Rooftop. E, no térreo, a Mundo Pão”, explica Olivier.

Antes de abrir o Esther Rooftop, Olivier enfrentou alguns problemas no edifício. O chef conta o prédio estava em péssimo estado e então resolveu mudar para lá. “Eu sou louco, sou ousado. Quando perguntei ao inquilino que estava lá no prédio se ele queria vender para mim, ele quase chorou, pois não acreditou”, relata o empresário. Segundo Olivier, era preciso trazer a alma do Esther de volta, era preciso olhar ao redor e aproveitar o espaço, o simples.

O empresário francês queria fazer com o centro de São Paulo voltasse a ser frequentado e apreciado. No Esther, ele viu um recomeço, devido também à localização do edifício, e decidiu começar. “Eu vi o Esther e ele me contou uma história, mas com uma alma decadente. Então, chamei minha esposa e falei que queria morar ali. Claro que ela não gostou muito, mas foi comigo. Em pouco tempo morando lá, recebi um comunicado de desapropriação do edifício. Eu disse: mas nem morto! Não ia deixar isso acontecer mesmo. Consegui assinatura de todos os residentes ali e entreguei para prefeitura. Nossa vitória e o Esther não foi desapropriado”, explica. “Em 2016, decidi abrir o rooftop, mas eu queria um restaurante que fosse para todos. Não é requinte, é conforto. Não queria segregar, eu queria juntar as tribos, pois aqui no Brasil as tribos vão sempre nos mesmo lugares, as pessoas buscam seus iguais e eu não queria isso”, completa o padeiro.

Por ser uma pessoa pública, Olivier Anquier tinha receio que seu restaurante virasse point da elite paulista e excluísse quem realmente vive nas proximidades do Esther. Para evitar isso, o chef pensou num espaço que conversasse com o máximo de pessoas possíveis, assim, e desenvolveu um cardápio ainda mais plural.

“Por que as pessoas vão para o restaurante? O que faz uma pessoa levantar e pensar: hoje quero comer fora de casa? Se você pensou que é comer, você tá enganado. Comer a gente come em qualquer lugar, mas te fazer entrar num restaurante é um conjunto de coisas. A pessoa vê seu restaurante e se sente atraída, depois que ela tá ali dentro ela quer ser bem tratada, é o que vai fazer ela ficar. Aí ela vai ver seu cardápio que tem que ser limpo, você tem que criar um storytelling para mostrar para seu cliente o quão boa sua comida é! E, agora, no final, por último, a comida. Tem que ser compreensível, tem que ser uma vivência. Tem que ser assim, aí você faz as pessoas quererem conhecer o local, tem quer ter opção da pessoa que quer almoçar no dia a dia e também para um jantar a dois ou em família”, explica o chef, padeiro e empresário francês naturalizado brasileiro.

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