Túnel Enzo Totis, na linha amarela, zona oeste do Rio de janeiro. Reprodução Wikipédia.

A cidade do Rio de Janeiro continua expandido-se incessantemente para a Zona Oeste, muitas vezes com construções irregulares, sujeitas a inundações e deslizamentos. Na região, vivem aproximadamente 2,5 milhões de habitantes, correspondendo a cerca de 40% da população do município. “Somente 8% da população da Zona Oeste moram e trabalham na Zona Oeste”, diz Mauro Osório, renomado economista em economia fluminense. O transporte coletivo é diariamente sobrecarregado no pendular e longínquo vaivém casa emprego.

A maioria da população residente na Zona Oeste trabalha no Centro da cidade. Embora disponha da mais densa e diversificada infraestrutura de toda a geografia metropolitana, o Centro tem se esvaziado cada vez mais. O fato é que no coração urbano do Rio moram apenas 32 mil habitantes. A perda de vitalidade da área central em um processo de desertificação que se ampliou com a pandemia pode ser medida pelo fato de que, na área, há hoje 500 prédios sem uso, inteiramente fechados.

Os bons tempos (la belle époque) nas praças e ruas centrais do rio e das grandes cidades brasileiras foram espanados com o urbanismo de le corbusier

Até o início do ano passado, estimava-se que havia no Centro (incluindo-se a Lapa e o porto) ao redor de 800 mil empregos formais. Fato é que o declínio da vida cotidiana no coração do Rio teve início após a inauguração de Brasília, em 21 de abril de 1960. A nova capital do país nasceu inspirada na visão urbanística do arquiteto franco-suíço Le Corbusier. Ele difundia o modelo de que cada lugar da cidade deveria ter só uma função.

Isso significa que, na visão urbanística de Le Corbusier e do seu seguidor, Lúcio Costa, suprimiu-se a multifuncionalidade (a mistura dos usos) das cidades, segmentando-as em áreas compartimentadas em usos exclusivamente residenciais, comerciais, hoteleiros, recreativos, oficiais/ administrativos, de lazer e entretenimento.

Nesse modelo urbano, os núcleos de uma só função (monofuncionais) são separados entre si por amplos gramados e pelo trançado das vias expressas, espalhando-se o território as cidades. A compartimentação setorial entrou na moda, provocando amplo e generalizado espraiamento urbano em grande parte das cidades brasileiras.

No livro ‘Tudo o que é sólido desmancha no ar’ (Companhia das Letras), o autor Marshall Berman escreveu que Le Corbusier queria que as ruas pudessem simplesmente ser riscadas do mapa. “Le Corbusier o disse, bastante claro, em 1929: ‘Precisamos matar a rua’”. Mas, há entre os gestores públicos do Rio a disposição de fazer renascer em muitos bairros a cidade das ruas vivas, adensadas em mistura de funções (aproximando as residências do comércio, das praças e parques, das escolas, dos estabelecimentos de atendimento à saúde etc), em um processo que vai se reproduzindo nos bairros do entorno, a partir da sua área central.

Washington Fajardo, que foi assessor especial de Eduardo Paes na gestão 2009/2016, quer trazer de volta a microeconomia do cotidiano ao centro

O arquiteto Washington Fajardo, 42 anos, assumiu a Secretaria Municipal de Planejamento Urbano, no dia primeiro de janeiro, disposto a colocar em prática ideias que o acompanham desde que se formou pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ele pensa a cidade como o espaço do diversificado compartilhamento humano. Na gestão anterior (2009/2017) do prefeito Eduardo Paes, Fajardo presidiu o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, órgão municipal incumbido de proteger e promover o patrimônio cultural do Rio de Janeiro, reconhecido pela Unesco em 2012.Ele é sabidamente um arquiteto/urbanista que se empenha em colocar a microeconomia (os pequenos e médios negócios) do dia a dia das cidades no centro das atenções dos gestores públicos brasileiros e no primeiro plano da agenda nacional.

Tanto assim é que, em entrevista à Bares e Restaurantes, há quatro anos e meio (em janeiro de 2017), Fajardo já defendia o ponto de vista de que a revitalização do Centro do Rio pode até mesmo se tornar uma referência para o reflorescimento da vida urbana no país, a começar pelas capitais dos estados. Eis um trecho da entrevista:

- “Para que o Centro histórico (carioca) seja sustentável, precisamos de pessoas. Com gente morando, vamos ter o comércio funcionando; vamos ter bares, restaurantes, cafés, padarias, mercearias, lojas dos mais diversos ramos. É olhar para o Centro um pouco como se fosse um bairro. Tem de se acabar com a ociosidade dos imóveis. Há (no Centro) muitos imóveis vazios. Combater o abandono de imóveis é uma agenda difícil. O setor público carece de ferramentas para mudar isso. Precisamos colocar em prática, logo, uma política que possibilite às pessoas estarem juntas na cidade. A solução é fazer com que a pessoa possa estar próxima do trabalho dela”.

“Que o Rio cresça para dentro, faça locação social, recicle edifícios, guie-se nos princípios da cidade humana e ambientalmente sustentável”

O principal objetivo da sociedade e, portanto, dos agentes públicos, na visão de Fajardo, deve ser o de as cidades crescerem dentro de si mesmas, em um processo de adensamento de qualidade, tendo como pontos de partida os espaços já habitados e providos da infraestrutura básica. Evita-se assim que as cidades continuadamente avancem em direção às áreas com fragilidades ambientais e, ainda, que se criem moradias socialmente apartadas, como ocorre nos bairros murados dos condomínios residenciais. Pretende-se que o Centro histórico do Rio seja o núcleo propagador dessa cidade multifuncional, com vizinhanças socioeconomicamente diversificada.

Mais do que uma intenção, esta meta-síntese institucionalizou-se com o projeto Reviver Centro, adicionalmente contemplando o bairro da Lapa, a faixa portuária e os lugares, situados no espectro da região, onde já existem moradias. Fajardo também menciona alguns exemplos de bairros e lugares vocacionados para imediatamente replicarem a pluralidade funcional e social que se pretende para o Centro histórico. Citou a Praça da Cruz Vermelha (em frente ao Hospital da Cruz Vermelha, tendo como referência a avenida Mem de Sá), a Cidade Nova (onde se localizam o Teleporto Central Empresarial Cidade Nova), e os bairros das imediações portuárias (como Gamboa, Santo Cristo e Saúde).

“Há, nas cidades, uma microeconomia riquíssima, que não é colocada nas políticas nacionais de desenvolvimento. Um botequim não é um cisco econômico, não é uma bobagem econômica. Um botequim, um café e uma padaria estão no ecossistema de pequenos e médios negócios urbanos que são poderosíssimos para produzir acesso ao primeiro emprego, renda, ambientes mais seguros, vivos, visitáveis”. Washington Ashington Fajardo - Secretário Municipal de Planejamento Urbano

O reflorescimento da cidade maravilhosa sintoniza-se com o urbanismo de Janette Sadik-khan, em Nova York, e Oriol Bohigas, líder da equipe do projeto de Barcelona

Agora à frente da Secretaria de Planejamento Urbano, Washington Fajardo oficializou o conjunto de suas amadurecidas e arrojadas ideias de revigoramento do Rio. A guinada para o início de uma nova era de acentuadas melhorias na qualidade da vida urbana dos cariocas, como se pretende a partir do ‘Reviver Centro’, só é comparável, em termos de ousadia, aos ciclos de transformações pelos quais passaram Nova York (nos três mandatos do prefeito Michael Bloomberg, entre 2002 e 2014) e Barcelona, no período pré-olímpico de 1985/1992.

Mesmo sem ter quaisquer restrições financeiras, políticas e, também, falta de apoio por parte da sociedade para se alcançar os complexos e desafiantes objetivos traçados, a implantação do conjunto das intervenções urbanas em Barcelona consumiu sete anos seguidos de obras. Em Nova York, o prazo estendeu-se ao longo dos 12 anos da gestão do prefeito Michael Bloomberg. Nas duas cidades, os ventos sempre sopraram a favor dos projetos que foram desenhados e colocados em prática sob o comando da gestão pública.

A concepção do projeto liderado por Washington Fajardo sintoniza-se com a linha de pensamento de Janette Sadik-Khan (a urbanista que ficou à frente das transformações em Nova York) e de Oriol Bohigas (o urbanista que foi o maestro das intervenções em Barcelona). Os três mencionados urbanistas privilegiam a cidade da escala humana; isto é, feita para as pessoas, com ruas vivas e acentuada diversidade social e econômica. São visões convergentes com as do dinamarquês Jan Gehl e do brasileiro Jaime Lerner (falecido em 27 de maio de 2021).

O plano ‘reviver centro’, comandado por Washigton Fajardo, é o da microeconomia do cotidiano, com o comércio de portas abertas às ruas e calçadas, com diversidade de classes sociais

O denominador comum entre as linhas de ação desses urbanistas (Fajardo, Janette Sadik-Khan, Oriol Bohigas, Jan Gehl e Jaime Lerner) é a cidade com mistura de usos. Ou seja, as cidades em que as moradias estejam próximas dos locais de trabalho, compras, estudo, cuidados à saúde, lazer e entretenimento. Portanto, o modelo da cidade multifuncional é o da cidade compacta, de baixo carbono e socio-economicamente diversificada, situando-se no lado oposto ao modelo da cidade dividida por classes sociais, segmentada, espraiada e muito dependente dos deslocamentos motorizados.

É na cidade compacta, com movimento diurno e noturno nas calçadas, que se multiplicam as portas abertas para as ruas. Essa dinâmica da vida cotidiana tem de estar na tela de uma política nacional, como há quatro anos já discorria o secretário de Planejamento Urbano do Rio à revista Bares & Restaurantes:

“Há, nas cidades, uma microeconomia riquíssima, que não é colocada nas políticas nacionais de desenvolvimento. Um botequim não é um cisco econômico, não é uma bobagem econômica. Um botequim, um café e uma padaria estão no ecossistema de pequenos e médios negócios urbanos que são poderosíssimos para produzir empregabilidade, acesso ao primeiro emprego, ambientes mais seguros, vivos, visitáveis. E a gente não fala disso; a gente não trata disso”.

"Produz-se habitação de baixa qualidade lá longe, na periferia. O desenvolvimento ficou totalmente desbalanceado com a expansão da cidade para regiões pouco dotadas de equipamentos urbanos, enquanto lugares servidos por razoável infraestrutura, especialmente na área de transportes, como é o caso da Zona Norte, sofreram um processo de esvaziamento"- Washington Fajardo

A fluidez harmônica do movimento nas ruas, ladeadas pelo comércio dos pequenos e médios estabelecimentos, requer um pacto de ordenamento dos espaços públicos, como observou o arquiteto/urbanista Fajardo. Assegura-se assim o compartilhamento na diversidade. “Vendem-se produtos industrializados sem nota fiscal. Vendem-se de lâminas de barbear a chocolate. Por trás disso há uma rede de ilegalidade, inclusive de contrabando”. O ordenamento é mais viável onde já há alguma coesão social oriunda de vizinhos (tanto de moradores quanto empreendedores do comércio e dos serviços locais). Do mesmo modo, é mais viável se promover um maior adensamento de residências locais onde já há infraestrutura urbana, comércio e moradias.

As regiões norte e da Leopoldina, bem como os Complexos da Maré e do Alemão, estão nas prioridades de ordenamento que se irradiará a partir da Lapa, do Centro Histórico e do Porto

Além do Centro, o secretário de Planejamento Urbano diz que o adensamento deve ser apoiado e estimulado nos bairros que reúnem os pré-requisitos por ele apontados. São esses bairros os da Zona Norte (por exemplo, Vila Isabel, Méir, Madureira, Pavuna, Irajá, Complexo do Alemão, Complexo da Maré).

Como parte dessa região Norte, há a chamada Zona Leopoldina (bairros tradicionais, nascidos próximos à linha da Companhia Estrada de Ferro Leopoldina, implantada pelo Imperador D. Pedro II, a partir do ano de 1874). Assim surgiu um enfileirado de bairros: Bonsucesso, Olaria, Penha, Ramos, São Cristóvão, Manguinhos, Brás de Pina, Cordovil, Parada de Lucas), implantada pelo imperador D. Pedro II, a partir do ano de 1874. Fajardo diz: “É hora de adensar o Centro e a Zona Norte”.

O que nitidamente se pretende como o Secretário de Planejamento declarou à imprensa logo depois de tomar posse é redirecionar o avanço desenfreado da Zona Oeste para os bairros da Zona Norte, que dispõem de uma infraestrutura básica já assentada e de espaços ainda disponíveis. Ele reitera que é preciso estimular moradia onde já há moradia, infraestrutura e proximidade com o emprego, ao invés de se construir habitações novas em áreas fora dessa consolidada malha, longe dos locais de trabalho e dos serviços urbanos.

Diz o secretário: “Produz-se habitação de baixa qualidade lá longe, na periferia. O desenvolvimento ficou totalmente desbalanceado com a expansão da cidade para regiões pouco dotadas de equipamentos urbanos, enquanto lugares servidos por razoável infraestrutura, especialmente na área de transportes, como é o caso da Zona Norte, sofreram um processo de esvaziamento”

“O botequim, o café e a padaria são poderosíssimos para produzir o primeiro emprego, os locais seguros, vivos e visitáveis; é o ecossistema dos pequenos e médios negócios"

O que também é inadmissível, diz Fajardo, é perder moradores onde já há moradia, assim como não se pode perder estabelecimentos comerciais nessas áreas com infraestrutura já consolidada. Ele não se conforma quando se fecham bares e restaurantes que se incorporaram à memória afetiva das pessoas. “Precisamos tratar disso. Um botequim, um restaurante, um café e uma padaria estão no ecossistema de pequenos e médios negócios urbanos que são poderosíssimos para produzir empregabilidade, acesso ao primeiro emprego, ambientes mais seguros, vivos, visitáveis”.

Uma vez reordenado o espaço público, com a moradia aproximando-se do trabalho, como antes vê o secretário de Planejamento Urbano, “os investimentos em comércio e serviços acontecerão com muita celeridade. Se esse processo acontecer rapidamente, a recuperação do setor, que foi muito afetado pela pandemia, ocorrerá em um curto prazo, em V”.

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