Por Valerio Fabris

Ao ser lançada, publicação infiltrou-se em espaços deixados em aberto por parte da imprensa que não sobreviveu à revolução digital

Há 35 anos, em 1986, quando era lançado o Plano Cruzado, fundava-se a Abrasel. No país, criava-se uma nova moeda, instituíam-se a Lei de Responsabilidade Fiscal, o regime de meta de inflação, um conjunto de programas de combate à pobreza, as agências regulatórias.

A seguir, derrubavam-se monopólios, privatizavam-se empresas, entre elas os bancos estaduais. As primeiras marolas da futura revolução digital, originária dos Estados Unidos, batiam nos onze mil quilômetros de extensão da costa brasileira.

Dez anos depois, em 1996, o então diretor jurídico da Abrasel em São Paulo, Percival Maricato, tomou a iniciativa de criar e fundar uma revista para a entidade, a Bares & Restaurantes (B&R). Disse ele por ocasião dos 15 anos do lançamento da B&R:

- “A ideia da publicação é manter os empresários informados para que eles tenham condições técnicas de dirigir seu negócio e relatar experiências que deram certo ou errado, não só no plano institucional, mas também na gestão, no marketing, nas leis trabalhistas e tributárias, na obediência às normas de higiene e segurança do trabalho”.

Primeira versão impressa da revista Bares & Restaurante em 1996

As empresas jornalísticas melhor posicionadas e geridas levaram também para as telas o mesmo conteúdo gráfico/editorial da versão impressa

A avassaladora maré digital estava mudando o modelo de negócios da imprensa em todas os países democráticos. As empresas jornalísticas que não se adaptaram às transformações decorrentes dessa revolução tecnológica, inclusive no comportamento das pessoas, naufragaram até mesmo nos países dos mais elevados níveis de educação e hábito de leitura.

John Ludlam, editor da Reuters, produtor de vídeo e escritor, afirmou em 2015: “Acho que todos os jornalistas sensatos percebem que a nossa profissão está evoluindo e temos que evoluir com ela”.

Sua advertência estava valendo, ainda, para os jornais e revistas da comunicação corporativa. O novo modelo de negócio impôs que as publicações impressas deveriam ter também uma simultânea reprodução digital.

Assim, o leitor passaria a contar com a opção de acessar os mesmos conteúdos e o mesmo desenho gráfico tanto na leitura do impresso quanto na tela. Deste modo, não existe a substituição do impresso pelo digital, mas complementariedade das duas versões.

Nas edições de publicações impressas (jornais e revistas), replicadas no digital, não cabe o noticiário estritamente factual. Sobretudo quando se voltam para um público que decide os rumos de seus negócios, dentro de um contexto social e político em periódicas mudanças, essas publicações passam a ser relevantes.

Tornam-se fontes de referência. Ajudam a apontar tendências. Suas edições não se voltam ao entretenimento ou à busca por leitores ávidos por sensacionalismos, mas à análise do factual, contextualizada, circunstanciada, traçando-se retrospectos e perspectivas, narrando-se uma história.

A B&R é o centro de um sistema de comunicação, em torno do qual giram o site, Facebook, Twitter, Instragam, Linkedin, pocasts e as vídeoconferências

A Bares e Restaurantes surgiu na cena da comunicação corporativa brasileira em uma fase de transição entre o tradicional domínio dos jornais e revistas impressos e o início de uma emergente da revolução digital.

Em uma era de ascendente diversidade social e econômica, as edições de jornais ou revistas duplamente impressas/digitais acabaram fazendo companhia tanto nas empresas jornalísticas quanto as do universo corporativo a um amplo leque de siglas do caleidoscópio da rede social.

Assim, também a B&R acabou acompanhando os movimentos de vanguarda. Tornou-se o ponto de partida para enredar a comunicação corporativa da Abrasel em uma ampla teia de interações disponíveis na rede social. A partir do site da entidade, a comunicação corporativa abriu-se a todo o rol de conexões disponíveis na rede social. Ou seja: Facebook, Instagram, Twitter, WhatsApp e LinKedin.

Na sequência, vieram as videoconferências e a transmissão online de eventos internos e externos da Abrasel, por meio de plataformas como as do Zoom Meetings, Skype, Microsoft Teams. Também começaram a ser veiculados podcasts estrelados por especialistas dos vários segmentos de gestão do universo do setor da alimentação fora do lar.

A área da comunicação redobrou-se na tarefa cotidiana de filtrar e irrigar os acontecimentos do mundo Abrasel, escoando-os para a multiplicidade dos canais de interação disponíveis na internet. A B&R metaforicamente constitui-se no Olimpo e no oráculo da comunicação corporativa da entidade.

Nas suas múltiplas reportagens e entrevistas, exprime os mais elevados e valores, diagnósticos e posicionamentos, bem como as inovações e tendências que permeiam o setor.

Nasce a revista que passa a difundir o setor quando se reduz o número das publicações nacionais e regionais, com a queda de editais, anúncios de varejo e classificados

A B&R foi lançada quando se avizinhava uma grande crise no modelo tradicional das empresas jornalísticas, não só no Brasil, mas internacionalmente. Por aqui, os grandes jornais começaram, um a um, a cerrar as portas das sucursais instaladas na maior parte das capitais do Sul e do Sudeste. Mantiveram estruturas leves no Rio de Janeiro, em São Paulo e Brasília.

O mercado de trabalho dos jornalistas sofreu seu primeiro grande baque, ao mesmo tempo em que proliferavam os cursos de Comunicação e se expandiam as assessorias de imprensa.

O impacto da difusão global da internet desorientou a imprensa brasileira e mundial. Desaparecem dezenas de jornais nos Estados Unidos, entre 2008 e 2009. Na França, o Le Monde foi salvo da falência, em novembro de 2010, graças à injeção de 100 milhões de euros, aportados por novos acionistas, entre eles Pierre Bergé, um dos criadores da marca Yves Saint Laurent.

A imprensa de qualidade ainda hoje permanece hesitante, sem saber como vender seus serviços no espaço da internet para que assim consiga sustentar a onerosa plataforma da mídia impressa.

A revista já está em sua 140º edição

A mídia ligeira nos sites, blogs e redes sociais, e a mídia de conteúdo nas publicações impressas/ digitais, focalizam dois públicos distintos: um popular e outro influente

Em meio às turbulências do mercado e à vertiginosa expansão da tecnologia digital, um novo jornalista entrou em cena. Ele tem disposição, apetite e traquejo para absorver e incorporar ao seu cotidiano as ininterruptas inovações que chegam ao mercado em intervalos de tempo cada vez menores.

Enquanto a maioria dos jornalistas mais moços jogam nas telas, em tempo real, os breves e secos informes, editando-os com agilidade e desenvoltura, os profissionais de maior experiência (aosquais se juntam os jovens de adequada formação cultural) escrevem para as versões impressa e da web, hierarquizando as notícias, contextualizando-as em elaboradas análises, estabelecendo conexões de causa e efeito.

Abre-se, com o jornalismo analítico e interpretativo, um bem demarcado território da qualidade, para as várias gerações da intelligenza: professores universitários, gente da cultura e das ciências, tecnólogos, arquitetos, designers, lideranças empresariais e comunitárias, ambientalistas, médicos e profissionais liberais em geral.

Desenha-se cada vez mais a tendência de o mercado se repartir em duas segmentações: a da mídia de conteúdo e a da mídia zero, que tem nos jornais populares e nas televisões de massa a sua grande audiência.

“A posição zero é a força da televisão, não sua fraqueza. É ela que representa o seu valor de uso. O espectador liga o aparelho para se desligar”, escreve o ensaísta alemão Hans Magnus Enzensberger no livro Mediocridade e loucura. Os veículos de comunicação só alcançam grandes audiências se desprovidos de conteúdo. O espectador da massa, segundo Enzensberger, sabe exatamente o que quer:

- “Ele é impermeável a qualquer ilusão de programa. Longe de permitir que seja manipulado (educado, informado, esclarecido, advertido), é ele quem manipula a mídia para implementar seus próprios desejos.

- "Qualquer um que não concorde com esses desejos é punido com a negação do amor e com o aperto do botão; qualquer um que os realize e leve em consideração é recompensado com maravilhosos índices de audiência".

- "Para o espectador é bastante claro que ele não está com um meio de comunicação, mas sim com um meio para a recusa de comunicação, e ele não permite que qualquer coisa perturbe essa sua convicção. Aos seus olhos, exatamente aquilo do que se acusa a mídia zero é que constitui sua maior atração”.

Jornais e revistas nacionais destinam as reportagens tidas como mais relevantes ao impresso/digital, veiculando as menos densas nos seus respectivos portais, blogs e podcasts

Há duas realidades distintas quando se analisam as transformações ocorridas na imprensa nacional, especialmente a partir de 1990. O maior retrocesso ocorreu nos mercados regionais. É inegável que as principais concentrações de jornalistas com mais tempo de profissão encontram-se, precisamente, nas sedes das emissoras de televisão Globo, SBT, Record e Band, dos jornais Estadão, O Globo, Folha e Valor. No segmento de jornais e revistas, o Brasil acompanhou a curva mundial de redução da mídia impressa.

O mercado de trabalho foi duramente atingido e alterado pelo fechamento de sucursais da Agência Estado/Estadão, de O Globo, da Editora Abril, do Jornal do Brasil, e assim por diante, em praças tradicionalmente importantes, como Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, Belo Horizonte, Salvador e Recife. Eliminaram-se correspondentes nacionais e internacionais.

As casas editoras de São Paulo reduziram o tamanho das sucursais no Rio de Janeiro; revistas e jornais do Rio e de São Paulo fizeram o mesmo em Brasília. Simultaneamente, aí sim, promoveu-se, no conjunto dos jornais estaduais, em uma geografia quase continental, do Oiapoque ao Chuí, a compactação e a jovialização das redações.

A B&R fala ao setor da alimentação fora do lar, às partes interessadas (os ‘stakeholders’), ao mundo oficial e empresarial, com destacada presença em Brasília e São Paulo

Ao se reduzir o número dos jornais e das revistas nacionalmente mais influentes, estreitou-se demasiadamente o espaço para os fatos regionais e de segmentados setores da economia na imprensa brasileira.

A revista Bares & Restaurantes foi continuadamente exercendo o papel de nacionalizar e regionalizar as notícias e análises do setor da alimentação fora do lar nas 27 unidades da federação. Também fortaleceu a conexão do setor com os seus elos circundantes: clientes, fornecedores, líderes comunitários, instituições de interesse público e organizações não-governamentais.

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