Entre mudanças no hábito dos consumidores e procedimentos operacionais por mais segurança, setor de alimentação fora do lar passa por transformações


Não é segredo pra ninguém que bares e restaurantes são fortemente impactados pela pandemia causada pelo novo coronavírus. Outras reportagens nesta edição da revista Bares & Restaurantes detalham o tamanho do estrago, a luta capitaneada pela Abrasel em defesa do empreendedorismo e a recuperação do setor que mais emprega no País. Resta saber como será o futuro dos estabelecimentos pós pandemia. Com o distanciamento social flexibilizado, mudanças de hábitos dos consumidores e procedimentos operacionais por ainda mais segurança, os bares e restaurantes como conhecemos hoje deixarão de existir?



Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que a resposta para este questionamento é precipitada, mas são unânimes em dizer que sim, haverá mudanças drásticas. Afinal, como será o ‘novo normal?’ “Saúde, segurança e solidariedade. Esses são os três ‘S’s’ que norteiam as decisões dos consumidores atualmente”, diz Simone Galante, CEO da Galunion, empresa especializada em consultoria para food service. “Somos uma área que serve as pessoas. Refeições e hospitalidade são as maneiras como prestamos esse serviço. O novo normal será regido por esses elementos”, conta.

Simone Galante


Preferências

Uma pesquisa feita pela Galunion e divulgada em abril mostra que a cada 10 pessoas, 9 estão evitando comer fora de casa. 93% dos entrevistados estavam cozinham e preparando comida em casa no auge da pandemia. Perguntados sobre qual tipo de culinária gostariam de pedir e comprar neste momento, vemos a ascensão da comida mais familiar e acessível. “É de se esperar que em momentos de alta insegurança os consumidores se voltem para o que se sentem mais confortáveis, sendo menos aventureiros e com menor disposição em experimentar sabores novos”, diz Simone.

As principais culinárias são representadas pela pizza, o hambúrguer e a comida tipicamente brasileira, ou seja, de pratos que são eternos favoritos: arroz, feijão, frango, strogonoff, bife, farofa, batata frita, por exemplo. “As preferências não são homogêneas e nos faz pensar no quanto é importante que cada negócio em alimentação saiba exatamente com qual público deve se comunicar prioritariamente, e assim, maximizar suas ações de vendas”, continua.

A compra de alimentos para preparar em casa aumentou 31%, o que reforça a tese de Simone Galante de “canais mesclados”, com restaurantes se transformando em empórios e supermercados oferecendo refeições prontas. Já a forma como a comida é preparada é a maior preocupação do momento de uso de delivery (56%), enquanto 19% se preocupam mais sobre como a comida é embalada. A confiança no restaurante é o principal fator de escolha do restaurante no delivery, superando inclusive as promoções. A higiene e a limpeza são os fatores mais importantes na escolha do restaurante para comprar comida neste momento. Também aparecem com destaque ter o preço justo e a comida ser saborosa.

Em países que já passaram pelo pico da crise, distanciamento social é uma realidade em bares e restaurantes



Adaptações

O portal norte-americano de notícias Axios ouviu especialistas sobre adaptações para o futuro de bares e restaurantes. Nos EUA, buffets e pratos para serem compartilhados parecem estar com os dias contados, talheres virão embrulhados, os cardápios serão digitais ou descartáveis – para evitar o manuseio de várias pessoas no mesmo material, garçons usarão máscaras e luvas, haverá metade das mesas nos estabelecimentos, com a tendência de os clientes terem suas temperaturas medidas.

Marco Amatti


Para Marco Amatti, CEO da Mapa Assessoria e membro da FCSI (Foodservice Consultants International Society), nesta nova “realidade transformada”, haverá uma questão da corrida de conveniência versus convivência. Para ele os três ‘S’s’ que norteiam a estratégia dos bares e restaurantes para se comunicaram melhor com seus consumidores são: saudável, solidário e satisfatório. “O estabelecimento que deseja sobreviver deve voltar suas atenções parar três bases fundamentais do negócio: ambiente, serviço e produto. Qualquer movimento a ser feito, por menor que seja, deve levar em consideração esse pilar”.

Um novo balanço na cadeia alimentar

Com a adoção do isolamento social parte dos comércios, alguns serviços e indústrias tiveram suas atividades paralisadas. O novo cenário exigiu não somente novas adaptações de trabalho mas também outros meios de produção, distribuição e comunicação, projetando assim, uma recessão econômica mundial. O coronavírus está pressionando ainda mais uma indústria já estressada. Nos EUA, por exemplo, agricultores diminuíram os trabalhos após a queda no consumo de leite. Como os produtores estão presos a produtos que não podem vender, a reação do setor de produção de alimentos ao surto de vírus pode afetar os preços nos próximos meses.

A partir deste cenário, o futuro do alimento pós pandemia passará por uma possível transformação motivada por novos hábitos, pela aceleração tecnológica, protocolos sanitários e de saúde global. Tudo para fornecer maior segurança alimentar, saúde, sustentabilidade e estabilidade às pessoas Segundo Maurílio Santos, inovador do Setor de Alimentos da FIESP, aos poucos o “sabor” não será mais o imperativo nas decisões de compras de produtos/alimentos perdendo espaço para a consciência nutricional e quantidade de emissão de gases de efeito estufa. A rastreabilidade da(s) matérias-prima(s) e modos de produção serão exigidos pelos consumidores.

Os produtos de plantas (plant-based) feitas em laboratórios atingindo o mesmo ou quase o nível do sabor e textura bovina, suína, continuarão crescendo em portfólio. A preferência por proteínas vegetais, nozes e castanhas se ampliará pela percepção de epidemias, sanidade, saúde e baixa emissão de gases de efeito estufa. O próximo degrau serão as carnes sintéticas produzidas em laboratórios, que possuem um maior controle sanitário, epidemiológico e baixa emissão de gases de efeito estufa.

Fonte: Galunion

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