Para não pagar mais caro pelo gás de cozinha é preciso estar atento às opções de serviços, fornecedores e preços encontrados


Por Paula Antonacci

São tantos custos envolvidos na operação de um bar ou restaurante que, por vezes, os gestores acabam negligenciando o controle de certos itens, que ao serem colocados na ponta do lápis, podem fazer uma diferença significativa. O gás de cozinha é um deles. Conhecer as opções de produtos, fornecedores e preços praticados no mercado é o básico para quem quer economizar e não pagar um valor acima da média, principalmente nos negócios em que a comódite é adquirida via contrato.

São dois os tipos de gás utilizados para cocção: natural (GN), composto majoritariamente de metano, e o liquefeito de petróleo (GLP), com maior presença de propano e butano. Enquanto o GLP é distribuído via rodovia para os cinco cantos do Brasil e comercializado em botijões ou a granel (armazenado em cilindros), a rede de distribuição do GN é feita por gasodutos subterrâneos e fornecida via encanação.

A Bares & Restaurantes falou com 12 empresários do setor que têm acesso aos dois tipos de gás e, para 10 deles, o GN vem sendo a melhor opção de uso. “Não tem armazenamento, não tem perda de combustível e é mais barato”, justifica Bobby Fong, proprietário da rede de restaurantes Chinatown, em Pernambuco, e conselheiro nacional da Abrasel.

De acordo com as normas da ABNT, os botijões e cilindros de GLP devem ser instalados no exterior do imóvel, em locais ventilados, por isso, é necessário que o estabelecimento tenha esse espaço ou se adapte para tal. Referente a perda de combustível citada pelo empresário, é comum que os botijões sejam devolvidos para as distribuidoras sem de fato estarem vazios, devido ao resquício de gás que sobra no fundo do recipiente pela falta de pressão no fim do uso. Na Câmara dos Deputados, esse assunto é pauta desde 2005, com a apresentação de um projeto de lei que exige que os revendedores de gás pesem o botijão no ato da devolução, visando conceder ao consumidor um desconto equivalente ao resíduo.

Já em relação aos preços, a comparação entre GN e GLP varia entre os estados e as cidades. Em Recife e Florianópolis, por exemplo, mesmo com menor poder de combustão, ou seja, geração de energia para cocção, pois o metano tem um valor energético mais baixo, o GN pode ser a opção mais econômica, baseado nas médias de preço fornecidas pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e por empresas responsáveis pela distribuição do gás natural nesses dois estados. Dentre outros fatores, o valor mais baixo do gás encanado em algumas regiões pode ser justificado pela economia na distribuição, já que esta é feita sem embalagem ou frota de transporte.

O proprietário do restaurante Duplex 48 Drink Spot, na capital de Santa Catarina, Rodrigo Marques, é um dos que optam pelo uso do gás natural. “Desde que passei do GLP para o GN registrei uma economia de 20% no uso do gás. Além disso, evito o desperdício e a necessidade de longos contratos”, explica, citando os acordos para compra do GLP a granel que variavam entre 3 e 5 anos de duração.

Vale ressaltar, que não é em todas as regiões que o GN é mais barato; a diferença varia de acordo com as empresas distribuidoras e a competitividade de mercado. Cabe ao empresário analisar as opções disponíveis em cada localidade.

Além disso, Rodrigo e Bobby alertam para a baixa capilaridade do gás natural no Brasil. De acordo com a ANP, o GN ainda não chega em estados como Acre, Amapá, Goiás, Maranhão, Pará, Piauí, Roraima, Rondônia e Tocantins e, mesmo naqueles em que chega, são poucas as regiões contempladas, concentrando a oferta majoritariamente nas zonas de alto poder econômico, como as capitais e suas áreas metropolitanas.

Além disso, o gás natural ainda não tem preço competitivo o suficiente em alguns estados. Esses dois fatores combinados explicam o porquê do GLP ainda ser o mais utilizado comercialmente no país.

Composição e variação dos preços GLP

De acordo com a ANP, vigora no Brasil, desde 2002, o regime de liberdade de preços para os derivados de petróleo: “Assim, não há qualquer tipo de tabelamento de preços, nem fixação de valores máximos e mínimos ou exigência de autorização oficial prévia para reajustes de preços dos combustíveis em qualquer etapa da comercialização”. Com isso, somente neste ano, a Petrobrás já reajustou o preço do GLP quatro vezes de janeiro a abril, resultando um aumento acumulado de 5,6%.

O reajuste das tarifas pode ou não ser sentido pelo consumidor final, já que o valor passado nas refinarias responde por cerca de 37% do preço final do produto. Veja a composição total dos preços do GLP:

Ou seja, o preço do GLP no Brasil varia não só de acordo com o valor do petróleo, mas também com a logística de distribuição, responsável por 44% do preço final. Daí também se explicam as diferenças de preço entre o gás revendido em diferentes cidades brasileiras, pois além do transporte, variam os impostos estaduais e o poder de negociação entre consumidores e distribuidoras, em função da divisão/concentração de mercado (market share), que muda em cada região. Há alguns anos, como mostram os dados da ANP, o mercado está basicamente dividido entre quatro grandes empresas - Ultragaz, Liquigás Supergasbrás e Nacional Gás - juntas, elas detêm mais de 80% das vendas.

A ANP faz um controle semanal sobre a média de preços da revenda do GLP em todo Brasil, por região, estado e em algumas cidades. Apesar de o levantamento ser feito com base na venda do botijão de 13Kg, comumente de uso residencial, o empresário pode ter um parâmetro para analisar os preços praticados pelas distribuidoras, que são indicadas no site da Agência. Atualmente, o estado que paga mais alto pelo GLP é o Mato Grosso, onde o produto chega a ser 54% mais caro que na Bahia, por exemplo.

Negociando o melhor preço

Conhecendo as opções e os fornecedores de cada região, cabe aos empresários e gestores negociar um melhor preço, de acordo com a necessidade de uso. Nessa hora, o poder do associativismo também pode fazer a diferença. A Abrasel no Norte do Paraná, por exemplo, tem uma parceria com a Ultragás na qual um grupo de empresários associados conta com um valor especial na compra do GLP a granel. De acordo com o diretor-executivo da Abrasel na região, Vinicius Donadio, um dos empresários destacou uma economia de 60% após negociações.

Os restaurantes instalados em shoppings e outros centros comerciais também devem estar atentos aos contratos fechados pela administração do espaço. É comum que esses contratos sejam longos e renovados sem contestação. Isso pode fazer com que o comerciante pague mais caro, porque enquanto o GLP a granel tem origem em “contratos cativos” o GLP vendido em botijões tem preços mais vigiados, com intensa concorrência. Esse foi o caso de George e Marcelo Yin, sócios do Labareda’s, em Fortaleza. “Contratos com grandes fornecedoras podem ficar acomodados. Nosso antigo contrato, firmado em 2012, nunca tinha sido contestado em seis anos. Além disso, a mesma fornecedora praticava valores muito acima da média de mercado e em relação a outras empresas do setor”, conta o George, que com um grupo de empresários tentou renegociar com a empresa sem acordo. “Caminhamos então para rescisão. Resultado: o valor do novo contrato com outra fornecedora é quase metade do antigo. Cortar custos é como cortar unhas, tem que cortar sempre”, complementa.

Para ficar de olho

Em abril, o Ministro da Economia, Paulo Guedes, declarou, em entrevista em frente a Instituição, intenção de criar medidas junto à Petrobrás para reduzir o preço do gás natural no País.

Clique aqui e consulte no site da ANP

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