Mercado cervejeiro mostra força para reconquistar a confiança dos consumidores, planeja crescimento para 2020 e mostra que tragédia envolvendo Backer foi um caso isolado

Por Danilo Viegas

A virada do ano foi turbulenta para o mercado cervejeiro no Brasil. Entre os dias 27 de dezembro de 2019 e 05 de janeiro de 2020, após a entrada em hospitais de oito pessoas com sintomas de intoxicação, começaram a circular, nas redes sociais, as primeiras informações sobre uma doença misteriosa que assombrava Minas Gerais. As primeiras investigações feitas pela Polícia Civil do Estado de Minas Gerais apontaram que todas as pessoas intoxicadas haviam passado as festividades na região do bairro Buritis, em Belo Horizonte, e, aparentemente, consumido a cerveja Belorizontina, produzida pela premiada cervejaria Backer, eleita em 2019 a melhor do país no Concurso Brasileiro de Cervejas.

Seis pessoas morreram. A principal suspeita era de que as mortes haviam sido causadas pela ingestão de dietilenoglicol presente em garrafas do rótulo da Backer. A notícia ganhou repercussão nacional e internacional. Trata-se do único caso no mundo envolvendo contaminação pela substância em cervejas, terceira bebida mais popular do mundo (logo depois da água e café) e com uma história de mais de oito mil anos.

Porém, o mercado cervejeiro não se abalou pelo isolado episódio e mostrou maturidade ao tirar importantes lições da tragédia. A Abracerva (Associação Brasileira das Cervejas Artesanais) agiu rapidamente e cerca de uma semana após o episódio da Backer explodir na imprensa, pediu ao Ministério da Agricultura a proibição do uso de dietilenoglicol e monoetilenoglicol no sistema de refrigeração de cervejas.

Buscando entender melhor a produção das cervejarias independentes brasileiras, a Abracerva realizou um levantamento entre seus associados para saber sobre os processos de resfriamento utilizados pelas fábricas. Entre as 200 cervejarias que responderam, 87,4% utilizam álcool na fabricação, 6% propilenoglicol (que não é tóxico ao ser humano) e 5,1% outros métodos. Apenas 1,5% das respondentes usavam o etilenoglicol, que tem um índice de toxicidade muito inferior ao dietilenoglicol.

Crescimento e diversidade

Carlo Lappoli, presidente da Abracerva

De acordo com Carlo Lappoli, presidente da Abracerva, o mercado cervejeiro mostra força para reconquistar a confiança dos consumidores. Apesar das fábricas consideradas ‘artesanais’ representarem apenas 3% do mercado cervejeiro, o índice de empregabilidade é alto: 13%. Segundo o Ministério da Agricultura, já são mais de mil fabricantes sediados em 479 municípios brasileiros, principalmente nos estados de Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo, o que mostra o poder de diversidade do nicho artesanal. Apenas no ano passado, o número de pessoas que pediram ao ministério o registro de uma marca aumentou 30%. Enquanto o mercado de cervejas deve crescer cerca de 3% neste ano, a estimativa do segmento artesanal da bebida é de um avanço de 20% a 30% no país, que já conta com cerca de 1.100 cervejarias.

O aumento do número de marcas contribui para tornar o preço mais competitivo, o que ainda é um obstáculo. “O grande desafio é a democratização do público consumidor. Isso passa pela redução da carga tributária e por questões internas, como ganho de escala e eficiência energética”, diz Lappoli.

“Inclusive o nome ‘artesanal’ hoje está mais voltado para o marketing. Não existe legislação específica para os pequenos. Uma cervejaria com cinco funcionários tem a obrigação de seguir as mesmas normas reguladoras de uma fábrica de grande porte, como a Ambev com a Heineken. O controle de qualidade exigido é exatamente o mesmo”, continua.

A força do empreendedorismo que não vê barreiras

O empresário mineiro Lucas Godinho, sócio fundador da cervejaria Capapreta, simboliza a força da indústria cervejeira no Brasil, que acredita que o mercado soube tirar valiosas lições do caso Backer e tem tudo para reconquistar a confiança dos consumidores. Não é pra menos: com apenas seis anos de atuação a cervejaria acumula 29 prêmios. Apenas em 2019 foram 11 conquistas nacionais e internacionais. A marca conta com 16 cervejas em sua carta e é conhecida por bebidas com personalidade, qualidade e alta drinkability. Confiante na maturidade do público que ama cerveja, Godinho planeja ampliar a distribuição dos rótulos da Capapreta e criar novas cervejas em 2020.

Com a fábrica instalada em Nova Lima, cidade que faz parte da região metropolitana de Belo Horizonte e é conhecida por ser um polo cervejeiro nacional, a produção da Capapreta começou tímida e de forma caseira, com Lucas produzindo cerca de 200 litros por mês e distribuindo entre amigos. Hoje, a fábrica faz mais de 30 mil litros e recebeu investimento de mais de R$ 1, 5 milhão para aumento de estrutura, com novos equipamentos. “Somos criteriosos em todos os nossos processos, desde o recebimento da mercadoria até a entrega do produto para os nossos clientes. É preciso entender que a cerveja artesanal hoje não é caseira, com produções que acontecem no ‘fundo de quintal’, ou na boca de um fogão doméstico. Todos nós respeitamos normas e exigências estabelecidas para que o consumidor beba um produto de qualidade”, diz.

Mudança cultural sem volta

Lucas Godinho aposta na maturidade do público que consome cerveja artesanal. Segundo ele é uma mudança cultural que não tem volta. “Há cinco, dez anos, o cenário era diferente. Hoje os apreciadores de nossos produtos possuem um senso de pertencimento. Enquanto mineiros, por exemplo, temos orgulho de falar que um dos produtos mais importantes da gastronomia de Minas Gerais é a cerveja artesanal”.

Para o fundador da Capapreta, isso acontece devido à riqueza histórica do produto, que acompanha o homem desde os primórdios da civilização. “A cerveja foi ‘minimizada’ pela grande indústria. Então é natural que quando uma pessoa deguste uma cerveja artesanal, ela seja apresentada a essa experiência que os sabores e aromas proporcionam. É um mundo cativante. Abre-se um leque de opções com diversas possibilidades. O público se interessa e pesquisa sobre o que é IBU, uma cerveja de fato puro malte, o que é levedura, esse tipo de coisas. Quando o mercado consegue estabelecer esse vínculo, tem um exército a seu favor. Viemos pra ficar, não tem volta”.

Em busca pela simplificação no empreender, Lucas argumenta que a carga tributária ainda hoje é pesada e onerosa para a indústria cervejeira. “Não temos dúvidas que as questões burocráticas relativas ao registro e controle de qualidade devem sim existir, mas há uma carga pesada e injusta que onera a ponta. Somos parte de um segmento que fomenta o turismo, possuímos um alto grau de empregabilidade e trabalhamos pela economia local”.

A tributação pode variar conforme o estado de destino do produto, tipo de cliente (atacadista, varejista, consumidor final), volume da embalagem e da produção anual.

Cuidados que os empresários devem ter no controle de qualidade

A bióloga Adriana Lara, consultora e instrutora em gestão da qualidade e segurança de alimentos, enumera alguns pontos que merecem a atenção de empresários que atuam na indústria cervejeira quando o assunto é controle de qualidade. Para ela, o erro maior está em avaliar as normas e procedimentos apenas na etapa final e isso pode custar caro. “Se você esquece uma etapa, o seu processo já está falho. O controle é ao longo do processo. A falta de qualidade é uma consequência de um neglicenciamento e gera vários custos: a perda de reputação da marca, clientes, produtos, desperdícios de insumos. O mais grave é a perda de vidas, um colapso total. Colocar dinheiro no controle de qualidade não é gasto, é investimento”.

Este esmero em cada uma das etapas foi difundido pela Nasa, a agência estatal dos Estados Unidos responsável pela pesquisa e desenvolvimento de tecnologias e programas de exploração espacial. Durante a corrida espacial na segunda metade do século XX, com missões cada vez mais longas, era preciso ter a certeza que os astronautas voltassem com vida e a missão obtivesse êxito. Daí foi criado um rígido sistema de controle de qualidade, conhecido como APPCC (Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controles), que inverteu a lógica de conferência: se antes o controle era apenas do produto final, foi estabelecido que ao longo do processo era preciso fazer mudanças, com interferências pontuais ao longo do processo para um maior controle efetivo.

Para Adriana, as normas do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento dá aos empresários todas as orientações do que é preciso fazer, desde procedimentos operacionais, como controle integrado de pragas, higiene e saúde dos manipuladores, até a higienização de equipamentos, instalações e utensílios.

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