Tomas Alvim é coordenador do Laboratório Arq. Futuro de Cidades do Insper


Por Valerio Fabris


Por que duas instituições brasileiras, a plata- forma multimídia Arq.Futuro e a escola de negó- cios Insper, uniram-se em uma parceria, envolven- do também o Itaú Cultural?


Desde a sua criação, há dez anos, o Arq.Futu- ro- promove a discussão e a reflexão sobre o futuro das cidades no Brasil. Ao longo desse tempo ficou claro que temos um problema estrutural de base: nossas cidades são fontes de exclusão socioespacial e replicadoras de uma pobreza sem fim. O Insper foi um parceiro de primeira hora das nossas realiza- ções. Logo no início das atividades do Arq.Futuro, promovemos conjuntamente o debate com os eco- nomistas José Alexandre Scheikman e Edward Gla- eser e essa parceria cresceu ao longo dos anos, sem- pre trazendo um olhar mais plural e diverso sobre os desafios da transformação urbana. A certa altura ficou claro que esse problema de base demandava reflexão e análise mais amplas, multidisciplinares e amparadas em evidências, para a proposição de so- luções efetivas e transformadoras do espaço urbano.

A estruturação de atividades de pesquisa, ensino e extensão no Insper, com essa orientação, foi o natural passo seguinte. Nosso foco primário no Labo- ratório é a cidade informal, e a aproximação com o Itaú Cultural surgiu diante da oportunidade de se criar uma pós-graduação em Urbanismo Social, em parceria com os professores da Eafit Urban, de Medellín. Isso consolida a tese de que instituições e grupos com objetivos sociais diferentes podem ser, e são por essência, atores fundamentais no desenho e na proposição de iniciativas orientadas para a reso- lução dos problemas urbanos. As quatro instituições aportaram conhecimento e experiências relevantes no objetivo do curso, no desenho do currículo e nos critérios de seleção dos professores e candidatos.

Qual a raiz do subdesenvolvimento urbano brasileiro, que caracteriza uma nação dividida em dois países, sendo um o da cidade formal, e, o outro, dos aglomerados subnormais?

Esta é a pergunta dos muitos milhões de ci- dadãos que não encontram na cidade a realização dos seus sonhos e as oportunidades que poderiam transformar as suas vidas. Historicamente repeti- mos os erros que promovem a exclusão e são di- versos os fatores que contribuem para esse cenário. Sendo sucinto, pontuo algumas questões que têm impacto profundo nessa realidade: planejamento com escasso uso de evidências, descontinuidade das políticas públicas urbanas e a falta de avaliação do impacto das medidas propostas.

Ou seja, observamos uma sucessão de propostas de planejamen- to urbano, com quase sempre tudo bem pensado e bem-intencionado, mas que, invariavelmente, se revelam ineficientes e descontinuados. A ideia de que o projeto possa resolver os problemas da cidade tem base no pensamento modernista brasileiro, do qual ainda não conseguimos nos desvencilhar. Falta olhar a cidade como um processo que evolui e se transforma.

E, para tanto, o planejamento precisa ser ágil e ter flexibilidade para interpretar, permitir e organizar essa transformação permanente do espaço urbano. Com isso acabamos por priorizar os inves- timentos na porção formal das cidades e reforçamos o abandono das áreas que têm mais demanda por investimento público. Não foi à toa que chegamos à inacreditável marca de ter quase 50% da nossa po- pulação sem saneamento básico.

Também se fala bastante de um divórcio entre a área acadêmica e o mundo empresarial. Planos diretores são aprovados sem que se meça toda a extensão do seu impacto econômico, e decisões empre- sariais frequentemente são tomadas sem levar em consideração os impactos urbanísticos.

Edward Glaeser, no livro “O Triunfo da Cidade”, conta que, das cinco cidades fundadoras dos Estados Unidos, só uma sobreviveu ao longo do tem- po: Boston. E por quê? Por conta do robusto parque universitário lá instalado. A academia é o elemento fundamental que reflete, discute, pesquisa e propõe soluções para a transformação da sociedade e das ci- dades. Por sua vez o mundo empresarial é uma re- levante e estrutural mola propulsora do desenvolvi- mento econômico da cidade.

A cidade, por sua vez, está em contínua transformação, e a dicotomia entre academia e mercado em nada contribui para que as reflexões e o desenho de soluções possam ser ampla- mente discutidos e avaliados de forma a encontrar as convergências que possibilitarão chegar nas soluções capazes de contribuir para a evolução das cidades. Essa polarização tem um peso importante para expli- car o ponto em que chegamos: somos um dos países mais urbanizados do mundo e que apresenta indica- dores urbanos deprimentes.

É recorrente no Brasil inteiro a realização de investimentos que, posteriormente, se revelam inúteis.

Sem dúvida, essa é a tônica dominante: a fal- ta de análise, de evidências, a falta definição dos objetivos. E, também, a falta de parâmetros para futura avaliação de impacto. Recentemente tive- mos obras e intervenções urbanas impulsionadas pelos Jogos Pan-Americanos e pelas Olimpíadas, no Rio, e pela Copa do Mundo (com suas doze ci- dades-sede), que simplesmente não passaram pela consulta às populações que conviveriam com elas para o resto da vida. Quando os necessários pré- requisitos são atendidos, a arquitetura e o urba- nismo tornam-se positivamente transformadores das vidas das pessoas, agregando qualidade ao cotidiano da sociedade, funcionando como um ele- mento de inclusão e desenvolvimento territorial.

O pressuposto fundamental para que isso ocorra é a efetiva e intensa participação da sociedade em todo o processo de decisão. É indispensável que as intervenções urbanas estejam respaldadas por evidências, estudos e pesquisas de caráter multi- disciplinar. Há questões que o urbanismo e a ar- quitetura, sozinhos, não conseguem responder. As cidades se transformaram em sistemas complexos e interligados. Além da academia e da iniciativa privada é fundamental também a participação da sociedade civil organizada e das lideranças comu- nitárias. Esse conjunto de atores tem que estar ali- nhado na definição dos objetivos e resultados da cidade em que queremos viver.

A pandemia tornou o cenário futuro ainda mais complexo de ser decifrado.

Sem dúvida, o surto da Covid-19 expôs a dura realidade dos nossos centros urbanos, onde a precarie- dade e a vulnerabilidade social extremas deixaram de ser invisíveis e nos colocaram o desafio de qual cidade queremos ter. Ao mesmo tempo, a pandemia trou- xe uma série de oportunidades para a reconfiguração de contextos urbanos e a precipitação de tendências que, no ritmo normal de assimilação, levariam décadas para ser consolidadas.

Tomaram corpo discussões como cidades policêntricas, mobilidade ativa, inclu- são digital, zoneamento misto, áreas verdes, et cetera. Destaque também para um nunca antes visto movimento de solidariedade, que uniu governos locais, so- ciedade civil e iniciativa privada em uma infinidade de ações de atendimento emergencial aos mais atingidos pela doença. Há um grande desafio pela frente, que é transformar esse modo emergencial em permanente, e usar essa união como um novo modelo de governança na gestão dos problemas da cidade.

Como ocorreu, cronologicamente, a conver- gência entre o Arq.Futuro, o Insper e a Universidade EAFIT?

Iniciamos as nossas atividades no Insper em 2017, com o curso de educação executiva ‘Inovação Urbana: novas formas de fazer cidade’. No final de 2019 formalizamos a criação do Laboratório Arq. Futuro de Cidade do Insper. A escola já tinha uma colaboração acadêmica com a EafitUrban. Quando montamos o núcleo de Urbanismo Social, coorde- nado pelo professor Carlos Leite, a extensão dessa parceria com os professores de Medellín foi natural. Afinal, eles são os criadores e praticantes, há vinte anos, dessa metodologia de intervenção em territó- rios violentos e de alta vulnerabilidade social.

Como se dá a interação entre o Laboratório de Cidades e o curso de pós-graduação em Urbanismo Social?

A estrutura do Laboratório é feita por núcleos temáticos. Temos hoje três núcleos em funciona- mento: ´Mulheres e Território’, ‘Urbanismo Social’ e ‘Dados Urbanos’. E há quatro outros núcleos em formação. Os núcleos funcionam estruturalmente interligados, e a conexão com as outras disciplinas do Insper é permanentemente estimulada. A nossa filosofia é a multidisciplinaridade e a interdisciplina- ridade na discussão dos desafios urbanos. É a cidade como um campo de atuação, em que profissionais de diversas disciplinas aplicam seus conhecimentos e suas ferramentas.

A pós-graduação foi montada pro- movendo esse conceito. Temos professores convida- dos dos setores públicos e privado, do terceiro setor, e professores da casa. Misturamos no corpo docente o saber formal acadêmico com o saber local, com a participação de diversas lideranças comunitárias de movimentos sociais, que aportarão a sua tecnologia social na resolução dos problemas e na proposição de soluções dos territórios em foco.

Qual o perfil dos profissionais que serão formados nessa pós-graduação em Urbanismo Social?

Serão capacitados e formados gestores públicos, privados e da sociedade civil. A seleção dos alu- nos obedeceu aos critérios de diversidade, gênero, raça e regionalidade, para que tenhamos um corpo discente representativo dos territórios, focos do Ur- banismo Social. Foi dada ênfase especial aos can- didatos que já atuam em territórios violentos e de vulnerabilidade social, e também às lideranças co- munitárias que já conduzem projetos nessas aéreas urbanas Brasil afora.

O Insper é reconhecido por seu programa de bolsas de estudo, criado em 2004, que tem mais de 250 beneficiados nos cursos de graduação em Economia, Administração e Engenharia , aí com- prendendo a Mecânica, a Mecatrônica e a Compu- tação. Como essa questão das bolsas é tratada na pós-graduação em Urbanismo Social.

Temos trinta bolsas de estudo para o curso de 360 horas, viabilizadas pelo Itaú Cultural, e desti- nadas a lideranças comunitárias do Brasil inteiro, inclusive para pessoas sem formação universitária. Sim, mesmo sem graduação, elas poderão fazer a ‘pós’. Os candidatos sem formação universitária farão o curso regular como os demais. Receberão o certificado de participação. Oferecemos também ajuda complementar com auxílio à estadia, à alimentação e ao translado para São Paulo para dez selecionados que necessitem desse suporte para po- der fazer o curso. A composição do corpo discente foi um dos desafios que enfrentamos. Temos como proposta combinar a educação formal com o saber local, do mesmo modo que compusemos o corpo docente; é a cidade representada pela sua diversida- de de saberes, experiências e competências


Há um elevado nível de ineditismo nessa mis- são a que se propõem o Insper, o Arq.Futuro e o Itaú Cultural, com o respaldo dos professores da Universidad EAFIT Urban, de Medellín.

Estamos o tempo todo atentos ao grau de difi- culdade da nossa missão. Não temos a obsessão de querer fazer algo que nos destaque como singulares, diferentes. O nosso empenho é o de que sejamos efetivos, transformadores. É o que nos importa. E, para tanto, a gente procura permanentemente rea- lizar diagnósticos, olhar as evidências, assim como olhar quais vêm sendo os recorrentes equívocos que têm gerado um preço cada vez mais alto na segre- gação urbana e na limitação do desenvolvimento imobiliário urbano.

A pergunta a ser respondida não é o que fazer, mas, sim, como fazer. Para tanto, tinha todo o sentido estabelecer uma parceria com a escola que abriga os fundadores do Urbanismo So- cial colombiano. Em vinte anos, Medellín passou de cidade mais violenta do mundo à cidade mais inovadora do planeta. Logo, aprender com eles era o caminho natural.

Como sair desse perverso ciclo histórico?

É preciso transformar inovando. Dizia Einstein: “Os problemas não podem ser resolvidos com a mes- ma mentalidade que os criou”(“Problems cannot be solved with the same mindset that created them”). Esses problemas tragicamente se reproduzem porque jamais serão resolvidos com a persistente reiteração do pensamento e das práticas que os geraram. A so- ciedade brasileira, com sua elevada, profunda e larga exclusão, vem dizimando gerações e gerações de jo- vens. Muitos morrem pelo caminho. Outros não se- rão ninguém na vida. Essa é a questão que nos move. O que nos anima imensamente é constatar que temos alcançado um aprendizado excepcional, convivendo com as lideranças comunitárias, em uma escola de ex- celência, como é o Insper, em um ambiente de inova- ção e tecnologia, de professores dos melhores padrões internacionais, formados nas melhores universidades do mundo.

Temos como proposta um modelo de transformação que se dá de baixo para cima, com en- gajamento cívico, com a conjunção de experiências diversas para a construção de soluções sem política assistencial ou assistencialista, com uma agenda in- clusiva e sustentada em evidências. Acreditamos na necessidade da construção de um novo contrato so- cial, um pacto em que as convergências sejam mais relevantes que as divergências polarizadoras que nos levaram para o abismo sem fim.

Qual o denominador comum que acabou esta- belecendo o vínculo entre o Arq.Futuro e o Insper?

A luta por uma sociedade mais justa, susten- tável e econômica, tecnologicamente desenvolvida. Acreditamos na educação e na disseminação de co- nhecimento para os diversos públicos da nossa so- ciedade como o elemento essencial para a realização desses objetivos.

E por que se elegeu o urbanismo como o mo- tivo condutor, o leitmotiv, do empreendimento dos sócios Marisa Moreira Salles e Tomas Alvim?

Do lado do Arq.Futuro, há um antecedente, um ponto de partida. Há 27 anos, portanto em 1993, Marisa Moreira Salles e eu fundamos uma editora chamada BEI, uma palavra tupi que quer dizer “um pouco mais”. A editora nasceu com o foco nas raízes do Brasil. Publicamos livros de artes plásticas, de fo- tografia, de design e de arquitetura, guias de viagem e gastronomia. Posteriormente, em 2011, precisamos reinventar a editora e aproveitar a multicanalidade como realidade editorial. Acoplamos a editora a uma plataforma multimídia, denominada Arq.Futuro.

O objetivo original era debater o Brasil, a partir do tema arquitetura. Realizamos palestras e debates com gran- des nomes nacionais e internacionais. Foi o que fize- mos. Mas constatamos que a questão brasileira estava muito mais no urbanismo do que na arquitetura. As cidades eram e são o grande palco dos desafios do de- senvolvimento. Nelas está concentrada a majoritária porção da nossa população, além de ser o centro das tomadas de decisões que definem o destino do país.

De quem partiu a iniciativa de propor aber- tamente essa parceria entre vocês. Foi do presidente do Insper, Marcos Lisboa, sua ou da Marisa?

O namoro era antigo, desde os primeiros deba- tes promovidos conjuntamente, como mencionei, e foi evoluindo com a criação do curso de Educação Executiva, para o qual fomos convidados por Rodri- go Amantea. Ele é o coordenador do programa de Educação Executiva do Insper e atual co-coordena- dor do Laboratório, conjuntamente comigo. Para o Arq.Futuro, a ideia de ficar focado exclusivamente na promoção do debate já não era suficiente e sentíamos a necessidade de focar os nossos esforços em inicia- tivas que fossem mais efetivas e transformadoras.

A educação surgiu como a alternativa que poderia fazer a diferença; e o Insper por ser um centro de excelên- cia em pesquisa e educação, como o lugar certo para a realização desse projeto. Com o sucesso do programa executivo, para o Insper a parceria também passou a fazer sentido, e então tivemos o convite de Marcos Lisboa para dar o passo seguinte, que foi a montagem do Laboratório de Cidades.

O deslanche da proposta de vocês, com a pós-graduação em Urbanismo Social, que começa em outubro, ocorre no limiar de um tempo novo, que é a era pós-coronavírus, quando os corações e as mentes dos brasileiros tornaram-se mais sensíveis aos apelos comunitários, ao compartilhamento social. Confere?

É uma pergunta muito boa. Acho que essa si- tuação trouxe três pontos fundamentais. Primeiro: o fim da invisibilidade. Perto de 40 milhões de pessoas que, anteriormente, não estavam em radar nenhum. Subitamente apareceram. A maior vulnerabilidade nacional veio à tona. Nós nos vimos mergulhados em uma profunda fragilidade socioeconômica. Milhões perderam renda, e, no momento seguinte, perderam o emprego. Os filhos perderam a merenda porque as escolas fecharam. O segundo ponto é que aflorou a solidariedade. Nunca vimos um país tão unido, tão concentrado no objetivo de ajudar o outro, tão participativo.

A comunhão nacional normalmente só acontecia no Carnaval e na Copa do Mundo. E, como terceiro ponto, superimportante, a demonstra- ção da organização e da capacidade de atuação dos movimentos de base, das organizações atuantes nos territórios vulneráveis. Invariavelmente esses mo- vimentos foram muito mais efetivos e resolvedores dos problemas do que várias esferas de governos. A sociedade se autoanalisou, se inteirou das suas dores, elaborou soluções, e, certamente, ficou mais aberta para novos modelos de governança e disposta a bus- car caminhos para que tenhamos cidades de fato in- clusivas, com qualidade de vida e oportunidades para todos, que é a razão de ser das aglomerações urbanas.


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