Debruçado sobre as águas de um rio afluente ao Amazonas, o Restaurante da Flora, no Amapá, se destaca como um oásis da gastronomia do norte brasileiro

A chef e empresária Flora Dias. Foto: Danilo Viegas



Danilo Viegas

Fica às margens do Rio Matapi, afluente do Amazonas, um aconchegante restaurante que se confunde com a história de Macapá, a capital mais ao norte do Brasil, famosa por ser cortada pela linha do Equador e permitir, como num passe de mágica, que qualquer pessoa pise, ao mesmo tempo, nos hemisférios sul e norte. Nas ruas da “cidade do meio do mundo”, do médico ao guardador de carros, todos abrem um sorriso no rosto quando perguntados se conhecem a comida e o lugar, tido como o espaço ideal para o almoço com a família aos domingos com direito à rica culinária nortista.

A discordância se dá apenas sobre como chegar no “Restaurante da Flora”, como é popularmente conhecido. Enquanto alguns apontam o melhor jeito atravessando a ponte Washington Elias Santos, que passa sobre o rio, outros preferem um caminho onde se misturam à natureza; por meio de barco.
O restaurante se debruça com palafitas sobre as águas e ocupa uma área de 18 hectares entre a vegetação nativa da região. Aberto às sextas, sábados e domingos, o Restaurante da Flora faz com que os clientes se deparem logo na entrada com a horta utilizada pela casa nos pratos ofertados. A longa escada de madeira que dá acesso aos jardins passa pela granja de gansos e outras aves e funciona como um cartão de visita ao clima do lugar, que chega a acomodar 350 pessoas aos finais de semana. No cardápio, as ricas iguarias do Norte do Brasil, com pratos que mesclam com excelências peixes, temperos e frutas amazônicas.

O destaque fica por conta do tacacá, tradicional também no Amazonas, Acre, Roraima, Rondônia, Tocantins e Pará. Prepara-se com um caldo amarelado, chamado tucupi. Coloca-se esse caldo por cima da goma de mandioca, também servida com jambu, uma erva amazônica que provoca uma dormência na boca e camarão seco. Serve-se muito quente, temperado com pimenta, em cuias.

Por trás dos pratos e da idealização do lugar do restaurante está a chef e empresária Floraci Dias, chamada carinhosamente por clientes e amigos como Flora e tida como a “primeira dama da gastronomia amapaense”, pelo presidente da Abrasel no Amapá, Alberto Nagano.

Do nada, na cidade no meio do mundo

Flora inaugurou seu restaurante no rio Matapi há três anos como a consolidação de um sonho antigo - mas ela já empreende a décadas. Há 26 anos, casada, grávida e já mãe de uma criança pequena, enxergou na possibilidade de empreender a oportunidade de um futuro mais digno, já que não tinha ainda a qualificação profissional para se lançar no mercado de trabalho formal. “Eu trabalhava para termos o que comer, mas eu e meu então marido queríamos construir uma casa, e assim procurei um outro jeito de prosperar”. Foi então que teve a ideia de comprar camarões e peixes de pescadores e revendê-los na beira da Rodovia Salvador Diniz.

“O peixe que aparecia eu vendia, fosse tambaqui, tucunaré ou pescada”, diz Flora. Logo tratou de improvisar, ainda na encosta do asfalto, uma churrasqueira para assar os peixes e uma barraca com duas mesas para atender a clientela. Acordava às três horas da madrugada, para pegar carona com um caminhão freteiro que se dirigia diariamente ao Porto de Santana. Lá comprava o peixe fresco, trazido das altas águas do Amazonas pelos pescadores, e atravessava o dia assando e vendendo. Flora ficou ainda dois anos na estrada antes de alugar um ponto fixo em Macapá, se formalizar e finalmente comprar o ponto. Saiu do nada na cidade que fica no meio do mundo para ganhar a vida.

No dia 1º de janeiro de 2000 inaugurou seu restaurante na região do Igarapé da Fortaleza, em Macapá, mesmo sem que o estabelecimento estivesse devidamente pronto para atender a clientela. “Não queria nem saber; ano, século, milênio novo, vida nova”. Conforme o negócio ia prosperando, Flora procurava se qualificar. Fez cursos de gastronomia, nutrição, contabilidade e administração. “Tudo para conhecer o que eu estava vendendo. Mas sempre busquei na cozinha as minhas raízes. Fazer o simples de uma maneira sofisticada. Aqui o peixe ainda é assado na folha da banana, o tempero é sal, pimenta, chicória e alfavaca, como manda o Norte”.

Um exímio bife com batatas fritas

Aos 11 anos Flora cozinhou pela primeira vez e desde então não parou mais. Vinda de família extremamente humilde e sem condições financeiras, aos 9 anos foi vendida pela mãe biológica, que não tinha condições de criá-la. Sobre o episódio fala com certa naturalidade: “hoje não pode mais, lógico, mas na época era ‘normal’, continuei a ter laços com minha família, mas vivia na casa dos outros. Lembro de precisar ter que subir em uma caixa de sabão pra lavar louças, de tão novinha que era”.

A patroa não a deixava chegar perto do fogão, mas Flora sempre a observava cozinhando. “Um dia ela passou mal e eu fiquei feliz simplesmente porque tive a oportunidade de cozinhar, o que sempre sonhei. Fiz bife e batata frita, o que até hoje é a coisa que mais faço bem e gosto de fazer. Sou simples. Ela gostou e nesse dia me tornei também cozinheira”.

Chef ou empresária?

Não é incomum se sentar nas mesas das palafitas do restaurante na beira do rio Matapi e ver Flora entre as panelas da cozinha. A empresária se mostra uma mulher insaciável no apetite de empreender, com uma rotina metódica de trabalho que a aproxima mais de uma funcionária do que propriamente uma mulher de negócios bem sucedida em sua área. “Cozinho aqui porque eu amo, mas não me considero nem chef nem empresária. Sou uma empreendedora que vejo oportunidades nos cenários mais difíceis. Esse paraíso aqui, por exemplo, surgiu quando sonhei num lugar parecido com um SPA, com chalés onde as pessoas pudessem comer, deitar na rede e se sentissem parte da paisagem. Dei a cara a tapa e peguei um empréstimo no banco mesmo não tendo, na época, dinheiro nem para pagar a primeira parcela, que na época era R$ 18 mil. Hoje temos um oásis em meio ao Norte, que surgiu do nada. É um patrimônio de Amapá”, finaliza.

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