Stone Street, a rua de paralelepípedos, no distrito financeiro de Nova York, mescla bares, lanchonetes, moradias em estúdios e lofts


O mais representativo e legítimo pacto nacional é o que nasce das ruas. Inicia-se nas cidades. Vem das bases da nacionalidade, de baixo para cima, como convém a uma autêntica democracia contemporânea. Mais de 80% dos brasileiros vivem nos espaços urbanos. As cidades tornaram-se, assim, sinônimo de cidadania. É por meio delas que o país pode mais rapidamente avançar em direção a um renovado ciclo social, ambiental e econômico, que nos conduza ao florescimento de uma prosperidade mais democrática e duradoura.

Ou seja, a base da vida nacional está cada vez mais assentada nas cidades. E a qualidade das cidades é facilmente percebida pela saúde de suas ruas vivas, seguras, versáteis, propícias aos entrelaçamentos humanos, em todos os matizes de idade, gênero, renda, etnia, status. Olhando qualquer cidade pelas lentes do microscópio, vê-se que suas ruas são as células do organismo urbano.

Quando são pálidas e descoradas, as ruas revelam a anemia do corpo urbano, como um todo. Mostram que estão esvaziadas de pessoas. Isso significa que as gentes das cidades desvitalizadas vivem umas distantes das outras, apartadas entre si. Para que nas cidades haja ruas seguras, sustentáveis e saudáveis é preciso que os espaços urbanos tenham o jeito Abrasel de ser, em que se combinem o mais livre empreender com as ruas de toldos de cafés, restaurantes, bares e confeitarias, desde o amanhecer ao iniciozinho da noite.

No jeito Abrasel de ser, as ruas são endereços de moradias, hotéis, supermercados, farmácias, floriculturas, escritórios e consultórios, escolas, hospitais, museus, igrejas. As células das ruas saudáveis, seguras e sustentáveis produzem a vitalidade do organismo urbano. O pré-requisito para que isso ocorra é que o ambiente esteja arejado pela facilidade de empreender. As complicações burocráticas, como as tributárias ou trabalhistas, aniquilam os estabelecimentos voltados às ruas, desertificando-as.

Há inquestionáveis conexões de causa e efeito entre estas três dimensões: ruas vivas, cidades florescentes, e uma nação socialmente coesa. Daí por que faz sentido a frase metafórica, segundo a qual, ao se resolver o problema dos bares e restaurantes, por consequência direta resolvem-se os problemas do Brasil. São os estabelecimentos de portas permanentemente escancaradas para as calçadas e, portanto, para a cidadania, que podem girar a chave de ignição, dando-se a partida rumo ao novo pacto institucional brasileiro.

O pacto requer que se redesenhem as cidades. Que elas tenham, indistintamente, moradia social nas regiões centrais, transporte público em quantidade e qualidade, reciclagem do lixo, saneamento básico. Que as cidades sejam compactas, com residências próximas ao trabalho, à escola, ao hospital, ao comércio, aos escritórios. Que nelas haja parques, praças e espaços públicos socialmente compartilháveis. O grande acordo nacional tem, por conseguinte, implicações nas áreas de saúde, educação, segurança, mobilidade, preservação ambiental.


Eis, em linhas gerais, a síntese deste manifesto A partir das ruas, simplifica Brasil.


O documento mostra que é perfeitamente possível a todos nós usufruir do imprescindível direito a uma cidade sustentável, segura, saudável, socialmente diversificada, bem no jeito Abrasel de ser.


Aqui, agora e sempre: onde há Brasil, Abrasel.


O jeito Abrasel de ser é o de uma sociedade que funciona de modo mais simples. Por isso, a campanha: Simplifica, Brasil.

Que a simplificação da vida brasileira ocorra a partir das ruas, dos bares, cafés e restaurantes, tal e qual acontece nas cidades com o jeito Abrasel de ser.

No jeito Abrasel de ser, as ruas das cidades são o imenso palco de um espetáculo diário: o balé de gentes nas calçadas, o espetáculo que cotidianamente se apresenta nos movimentos dos passantes, com as mais surpreendentes variações de figurino e coreografia.

As cidades leves e soltas são os nossos destinos turísticos preferidos. O que queremos? As ruas com diversificado comércio, com moradias, escritórios, bares, restaurantes, cafés, mesinhas debaixo dos toldos, bicicletários, livrarias, hotéis, escolas, bancas de revistas, floriculturas, galerias de arte, pontos de ônibus.

Há centenas de cidades com o jeito Abrasel de ser. Elas estão na Europa, desde a Escandinávia até o Mediterrâneo. Há muitas nos Estados Unidos e no Canadá. Suas ruas são vivas, seguras, sócio-diversificadas, sustentáveis, saudáveis.

Os brasileiros buscam, aqui mesmo, um espaço urbano de diversidades e pluralidades amalgamadas, que tão comumente se veem nas cidades europeias. Na maioria das nossas capitais, existem áreas pulsantes, com a vida muito compartilhada. Em São Paulo, nos bairros de Higienópolis, Vila Madalena e Pinheiros. Em Porto Alegre, na Cidade Baixa e em trechos de Petrópolis e do Moinhos de Vento. Em Belo Horizonte, na região da Savassi e no bairro de Lourdes. Na zona sul do Rio: Copacabana, Leblon, Ipanema, Botafogo, trechos da Tijuca.

Há no Brasil, portanto, uma promessa de luz, que deve ser irradiada e ampliada, como um conceito geral de urbanismo. As iniciativas, nesse sentido, são apoiadas pela Abrasel. Entre elas, melhoria das calçadas, moradia nas áreas centrais, aumento da frequência do transporte público à noite, investimentos em ciclovias, regulamentação do comércio varejista nos eixos viários dos bairros residenciais, integração das favelas às cidades, por meio de equipamentos públicos e políticas sociais.

Para que as cidades brasileiras se projetem no jeito Abrasel de ser, as administrações municipais precisam de uma visão estratégica orientada para o urbanismo da cidade plural, segura e sustentável. Que o país incorpore sua imensa legião de arquitetos ao primeiro plano da gestão urbana, das vilas às grandes metrópoles.

Que haja, da Amazônia aos Pampas, uma ação integral e integrada em relação ao saneamento básico, compreendendo o esgoto, o lixo, a drenagem e o melhor aproveitamento das águas. O país também precisa virar a página de uma longa trajetória de desleixo e descaso na ocupação do solo urbano, com seus recorrentes episódios de alagamentos e deslizamentos de terra. Visto apenas sob o ângulo do saneamento básico, o Brasil aparece como um dos mais atrasados do mundo. Metade de sua população ainda não tem acesso à rede de esgoto. Do esgoto que é coletado, 57% não são tratados. Mais de 15% das casas continuam sem água potável.

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