Há dezesseis anos, os gestores do Sebrae começaram a pensar em um jeito de se refrear o velho hábito dos anúncios de pacotes de desenvolvimento regional, feitos a partir dos altos escalões oficiais. Constituíam-se de conjuntos de medidas desenhadas, nos gabinetes oficiais, por meia dúzia de iluminados.

Não há notícia de pelo menos um deles que haja funcionado ou perdurado. A ideia, então, era a de que se buscasse inverter o processo, varrendo-se do mapa nacional a cultura do ‘de cima para baixo’.

O desenvolvimento regional deveria ser desejado e plantado pela própria comunidade no chão da vida real. Nasceriam, cresceriam, floresceriam e frutificariam como resultado da vontade e dedicação coletiva das mais autênticas lideranças locais do terceiro setor, das instituições políticas e do mundo empreendedor.

É desse jeito que funcionam os países com os melhores índices de prosperidade econômica e desenvolvimento humano. Mas o Brasil vai na toada de toda a América Latina, e vice-versa.

O que prevalece aqui e no Continente é a herança dos colonizadores ibéricos, que há cinco séculos plantaram nos domínios do Novo Mundo as regras do jogo ditadas pela Corte. O conjunto dessas regras resume-se a uma coleção de ‘ismos’ – mandonismo, patrimonialismo, compadrismo, clientelismo, nepotismo, caudilhismo, coronelismo.

Na nossa literatura sociopolítica consagrados pensadores identificaram os ‘ismos’ como ingredientes básicos na formação do caráter nacional.

Entre os canônicos intérpretes que compartilham desse diagnóstico estão os autores dos livros ‘Raízes do Brasil” (Sergio Buarque de Holanda), ‘Os Donos do Poder’ (Raymundo Faoro) e ‘Coronelismo, Enxada e Voto’ (Victor Nunes Leal).

Nas entrelinhas das citadas obras pode-se ler a frase que contém uma confortadora grande verdade: - “Cultura não é destino; muda-se”.Como? A sociedade pode espanar as fuligens e impurezas que emperram a máquina nacional, obscurecem a visão do horizonte e sufocam a esperança de um amanhã melhor do que os dois milênios transcorridos até agora.

É preciso inverter a ordem histórica, conferindo às comunidades a plena cidadania, o protagonismo de elas mesmas poderem transformar em realidade seus mais acalentados sonhos. Abafado pelo mandonismo, compadrio e etecetera e tal, o nosso capital social ficou ralo.

“A coesão social é um fator crítico para a prosperidade econômica e o desenvolvimento sustentado. É a argamassa que mantém as instituições em contato entre si, visando à produção do bem comum”.

No território marcado em amarelo e indicado pela seta é que estão os 44 municípios do Programa LIDER gaúcho. Portanto, o LIDER abrange toda a parte Sul do Rio Grande do Sul. Nem todos os municípios da região Sul estadual estão no LIDER, mas todos os municípios do LIDER estão espalhados na região Sul gaúcha

Assim escreveu a professora e cientista político Maria Celina D’Araujo, doutora pela Universidade da Flórida e pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas.

Ela prossegue: “Uma sociedade cuja cultura pratica e valoriza a confiança interpessoal é mais propícia a produzir o bem comum, a prosperar. A cooperação voluntária, assentada na confiança, por sua vez, só é possível em sociedades que convivem com regras de reciprocidade e com sistemas de participação cívica”.

Sempre que do alto das esferas oficiais os donos do poder lançam a esmo as sementes de seus pacotes desenvolvimentistas, o que geralmente ocorre é que elas não são se desenvolvem nas terras em que caem. Frequentemente, acabam repousando sobre finas e impenetráveis camadas de matéria orgânica, depositadas sobre rochas.

Se germinam, logo secam sob o sol. Ou, então, as sementes precipitam-se no ambiente hostil de uma embrenhada e asfixiante touceira de plantas espinhosas. Caso fiquem espalhadas na superfície do solo endurecido, os pássaros delas se alimentam.

A sociedade do lugar que lida no chão da sua vida cotidiana, em busca do pão nosso de cada dia sabe onde há as mais propícias terras férteis. Usa-se aqui, neste texto, a metáfora inspirada em uma semelhança de imagem que, no caso, vem da ‘Parábola do Semeador’, escrita pelo evangelista Mateus, em aramaico e há dois milênios.

São os semeadores que cuidarão de se obter boas colheitas. Eles também sabem identificar e separar o joio do trigo.

As sementes do LIDER (Programa para Desenvolvimento Regional) começaram a ser plantadas no solo fértil do Sebrae nacional em 2005. A unidade gaúcha do Sebrae logo assumiu a dianteira do movimento.

Em 2010, em Pelotas, a maior cidade sul do Rio Grande do Sul, foi lançado o projeto piloto dessa investida territorializante. Hoje, no Brasil há 73 polos em ação. Os semeadores saíram a semear.

* Valério Fabis é jornalista da revista Bares & Restaurantes

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