O Brasil tem 14,8 milhões de desempregados, conforme constatou o IBGE. E está faltando mão-de-obra até mesmo nos setores que mais atraíram trabalhadores durante a pandemia, entre eles os da agricultura, da construção civil e das empresas de tecnologia.

Como é que se explica esse paradoxo? Poderiam dizer que o problema é a qualificação. Isso decifra uma pequena parte do enigma. Há um apagão de mão de obra, inclusive na pecuária, que carece de gente para tocar a boiada até o curral.

O tal apagão atinge o país inteiro, nos campos e nas cidades. Ao caminhamos pelas ruas, vemos pessoas sentadas na entrada dos estabelecimentos fechados pela pandemia, estendendo as mãos aos passantes, pedindo dinheiro e dizendo passam fome.

Isso se tornou uma das cenas mais comuns no país inteiro. Às vezes, encostados na porta fechada e pixada, há um sujeito jovem e forte, com as pernas esticadas por sobre a calçada. Como é que pode?

Como é que pode, se faltam serventes na construção civil? As tarefas diárias do servente só exigem presteza e disposição física. Quais os outros pré-requisitos para a contratação desse trabalhador?

O que se espera dele é que seja diligente em atender às requisições que lhe fazem o pedreiro, buscando as ferramentas, preparando a massa, carregando tijolos, areia, cimento. Ora, mas por que esse moço, que tem a compleição de um atleta, estende a mão, dizendo que ele, a mulher e os filhos passam fome?

Além dos 14,8 milhões de desempregados, o Brasil tem 5,9 milhões de desalentados. Ou seja, o desemprego soma, de fato, 20,7 milhões de brasileiros. Os desalentados não entram no cálculo de desemprego do IBGE.

Para que seja considerado desempregado, seguindo os parâmetros internacionais dessa estatística, é preciso que a pessoa esteja buscando uma vaga. E este não é o caso daquele moço. Ele é um desalentado, preso às correntes da desesperança, que o amarraram às portas de um bar fechado por ordem do prefeito.

Ao chegar em casa, veio-me a notícia de que o Senado acabava de rejeitar a Medida Provisória (MP) 1045, cujo escopo era o de tornar permanente, para futuras situações que assim justifique, a redução de jornadas e salários, conforme se praticou durante a pandemia.

A Câmara dos Deputados havia aprovado a MP, nela acrescentando três novos programas de geração de empregos, com ênfase para as pessoas entre 18 e 29 anos, e as com mais de 55 anos. Na instância mais alta do nosso sistema bicameral, tudo veio abaixo.

Na manhã do dia seguinte, pensei no discurso que Martin Luther King pronunciou na Marcha sobre Washington, em 28 de agosto de 1963. “Digo-lhes hoje, meus amigos, que embora enfrentemos as dificuldades de hoje e de amanhã, ainda tenho um sonho.

Eu tenho um sonho de que um dia esta nação se erguerá e experimentará o verdadeiro significado de sua crença: ‘Acreditamos que estas verdades são evidentes, que todos os homens são criados iguais’”.

Que haja, sim, a igualdade de oportunidades para todos os brasileiros, em um uma nação, como disse o Luther King, “em que não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo do seu caráter”. Esse dia está chegando.

*Paulo Solmucci é presidente-executivo da Abrasel

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