Em suas três décadas de existência, a Abrasel tem externado um só posicionamento. Somos a voz e as aspirações das ruas. Representamos um milhão de negócios da alimentação fora do lar, de portas abertas às calçadas de alamedas, esquinas, becos, praças e vielas de cada um dos núcleos urbanos de um país continental. Logo que nasceu, em 1986, parecia que a Abrasel era de um jeito. Ainda quando estava no berço, o narcisismo primário a impulsionava a aceitar como associados somente as mais badaladas casas noturnas e os restaurantes mais chiques do país. Bastou crescer um pouquinho para se tornar empática.

Abriu-se à diversidade deste país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. Revelou sua predileção pelo alegre e movimentado carrossel de bares, botecos, cafés, lanchonetes, bistrôs, restaurantes ‘à la carte’ ou ‘self-service’. Engajou-se na obstinada missão de fazer com que o Brasil começasse a virar a página dos tempos coloniais da casa grande e senzala.

Assim, espontaneamente, modelou um temperamento inclusivo. Não foi por obra de consultores e marqueteiros. De sua energia interior, abriu-se a vereda, conforme escreveu o poeta espanhol Antonio Machado: caminhante, não há caminho; o caminho se faz ao caminhar. Há muito chão pela frente. A ousada agenda Abrasel é a da superação da desigualdade. Extraordinárias conquistas já foram alcançadas.

Por exemplo: saiu-se vitoriosa na dura e longa batalha pela regulamentação do setor de meio de pagamentos. O Banco Central passou a supervisionar o sistema. Até então, os emissores e credenciadores de cartões de crédito movimentavam-se no descampado do ultraliberalismo ‘laissez faire, laissez passer’ (deixai fazer, deixai passar). Também conseguiu-se, ao lado do Sebrae, ampliar o acesso dos micros, pequenos e médios ao regime tributário do Simples. A Abrasel realizou a proeza de ser uma relevante protagonista na legalização do contrato do trabalho intermitente.

Agora, obteve o formidável sucesso de ajudar a conceber e a viabilizar a Medida Provisória dos Salários. Conseguiu fazer com que o ministro Paulo Guedes publicamente se comprometesse a estudar a concessão de recursos (a fundo perdido) de capital de giro, aos pequenos empresários, de forma inusitadamente desburocratizada, isto é, por meio das maquinhas de cartão de crédito. Estamos perseverando nesse objetivo. Qual a razão de tanta luta? Somos onipresentes. Onde há Brasil, Abrasel. Temos cinquenta seccionais e regionais espalhadas neste país continental. Há aí uma simbiose, uma identidade recíproca que vai além da geografia. Nossas portas estão abertas às calçadas dos milhares de espaços públicos deste país continental. Por isso, falando pela nação, expressamos o nosso ideário no manifesto ‘A partir das ruas, simplifica Brasil’.

O que aflige o Brasil é o que também aflige a Abrasel. Somos um milhão de estabelecimentos, dos quais 650 mil estão na informalidade e 800 mil têm um faturamento bruto mensal inferior a R$ 20 mil por mês. Quando olhamos a pirâmide socioeconômica brasileira, constatamos que nossas semelhanças vão ainda além da onipresença geográfica: 63,2 milhões de brasileiros têm uma renda média de até R$ 1892,00. No ano passado, 13,5 milhões viviam na extrema pobreza, com uma renda US$ 1,90 dólares diários. O horizonte da nossa caminhada é um Brasil novo. Um país em que a vida floresça debaixo para cima, a partir do nosso chão, das nossas ruas, vizinhanças e comunidades. Nossa causa é o desenvolvimento sustentável do setor da alimentação fora do lar, o bem-estar da nossa gente. Esta é a razão de ser da Abrasel, é o que a faz ter força, ter raça, ter gana, sempre.

*Paulo Solmucci é presidente-executivo da Abrasel.

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